Bonito, mas triste.

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O livro Como eu era antes de Você da autora londrina Jojo Moyes, conta em 286 páginas o drama de Louisa, uma jovem que parou de estudar para trabalhar e ajudar a família. Em seus “bicos” ela vai trabalhar em uma mansão como cuidadora de um jovem cadeirante, mimado e depressivo. Ao descobrir que o jovem quer a “eutanásia”, ela se descobre apaixonada por ele e tenta de todas as formas fazê-lo mudar de idéia.
Me lembra um filme com a Julia Roberts, que ela faz esse papel de cuidar de um paciente terminal.
A autora tenta colocar um pouco de frases divertidas, mas é um livro-clichê em que o leitor já vai descobrindo o que acontece. É interessante a forma como a autora envolve o leitor, fazendo a gente gostar até do personagem mais chatinho. Não há um aprofundamento dos personagens ou da narrativa, em alguns capítulos ela muda o ponto de vista para os personagens secundários, mas não tem um arco de grandes acontecimentos.
Trechos do Livro: “O desemprego era um conceito, algo vagamente citado nos noticiários…nunca pensei que se pudesse sentir falta de um emprego como se sente de um braço ou de uma perna…fizesse a pessoa se sentir inadequada, inútil.” “Parecia um puro-sangue. Eu já tinha visto mulheres como aquela…o tipo de mulher que me faz duvidar de que todos os humanos pertençam a mesma espécie.” “Segurei-me para não dizer que qualquer um consegue fazer com que as coisas fiquem bonitas se possuem uma carteira tão recheada quanto uma mina de diamantes.” “Falei com certa autoridade sabendo que meus pais me consideravam uma especialista em toda sorte de coisas que nenhum de nós realmente tínhamos a menor ideia.”
Trailer do filme baseado neste livro:
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O Vídeo da Hora: This is America

Várias foram as interpretações e entrevistas sobre o vídeo This is America (Childsh Gambino), com  o ator Donald Glover, com duração de apenas 4 minutos e 4 segundos. É fantástico como mostra a diferença entre a realidade e a ficção da mídia, a forma como a mídia manipula as informações. Todo o contraste entre a mídia mostrando os clips de negros ricos e no fundo os negros sofrendo com racismo, polícia, morte. A arma sendo adorada e os mortos descartados, o celular sendo usado como ferramenta – para os ricos, como “kodak”, para os pobres como conexão.

Uma das melhores análises do clip que pude ver na internet, está em inglês e é da Vicky Hope. 1– A  primeira referência é do músico que se parece fisicamente com o pai de Travyon Martin, assassinado por um branco. E depois Gambino atira na cabeça coberta dele. Porque as pessoas não querem ver. 2– Suas danças são inspiradas em ritmos africanos famosos na web. Quando a câmera aproxima de seu rosto ele imita o personagem Uncle Ruckus, um homem negro que se acha branco e é racista.

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3–   Bem aqui, Gambino se apresenta como o ministro Jim Crow, um personagem inventado por volta de 1900, quando o blackface foi inventado por comediantes brancos.(As leis de Jim Crow foram leis locais e estaduais, promulgadas nos Estados do sul dos Estados Unidos, que institucionalizaram a segregação racial, afetando afro-americanos, asiáticos e outros grupos étnicos. Vigoraram entre 1876 e 1965.) Os Jim Crows eram uma paródia racista dos negros. Nessa imitação no clip ele atira em numa interpretação de um ‘escravo’ -pessoa negra com as mãos amarradas e pés descalços.

4– Após matar um homem, a arma é tratada com grande importância, enquanto o corpo é descartado. 5– A calça que Gambino está usando fazem parte do uniforme oficial dos soldados confederados clássicos, usada na guerra civil. 6– Mesmo depois de matar um homem negro, Gambino dança de forma alegre, sendo seguido por crianças inocentes da escola. Eles estão claramente copiando tudo o que ele faz porque ele é ‘legal’. 7– Enquanto as danças e a diversão acontece, o fundo está um caos. Pra que se preocupar com problemas “dos outros”, quando eles estão se divertindo tanto! 8– A Igreja sempre foi considerada um refúgio seguro para os negros. O coral está cantando e ele entra na vibe do coral, mas muda a fisionomia e atira em todos. Isso se refere ao massacre na Igreja de Charleston em 2015, um outro assassinato em massa de pessoas negras na América. 9– Ele fala do celular como ferramenta e a câmera mostra adolescentes com parte do rosto coberto usando celulares.

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10- Gambino faz um gesto de arma, ouve-se o tiro e todos vão embora, enquanto ele fuma um cigarro de maconha e sobe num carro vermelho e dança como Michael Jackson, enquanto a cantora Sza se apresenta como a estátua da liberdade, ironia à liberdade dos negros.

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11– De repente a tela fica black e surge uns olhos em pânico e Gambino aparece fugindo, correndo e todos os negros estão fugindo. Para onde?

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Grafic Novel =)

A grafic novel O Curioso Caso de Benjamin Button, baseado na obra de Scott Fitzgerald de mesmo nome, com 128 páginas, conta a história de um nascimento diferente: o bebê nasce com cerca de setenta anos e vai “rejuvenescendo” até virar um bebê de verdade. Todos os problemas com a comunidade, a escola, sua esposa envelhecendo e ele cada vez mais jovem, deixa o leitor grudado na história pra saber como o autor irá resolver esse problema. Com as ilustrações por Kevin Cornell, a história fica mais engraçada do que dramática. O filme de 2009 com elenco famoso, vencedor de vários prêmios, mas muito longo com três horas de duração.

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Proibido para Menores de 30. =0

O livro Laranja Mecânica do autor britânico Anthony Burguess, conta em 274 páginas (nesta edição comemorativa com 342 pág, com textos extras) a história de Alex e o livre arbítrio. Alex é um jovenzinho de 15 anos que tenta formar um grupo de desordeiros com mais três rapazes para “aterrorizar” o bairro onde mora. No começo da história, contada por ele mesmo,  ficamos sabendo que ele já foi preso anteriormente por esse motivo. E aí ele conta detalhes do sadismo, perversidade e anomalia do ser meio-humano que ele é. E não comete essas atrocidades porque está em grupo, não. Ele conta o estupro de crianças que ele pratica sozinho. E conta sobre a omissão de seus pais sobre sua conduta, quando deixa de ir à aula ou traz dinheiro pra casa. Então, ao ir novamente preso, pede pra participar de um programa do Governo que fará com que saia da cadeia pra nunca mais voltar. Esse sistema é um tipo de “hipnose/lavagem cerebral” que associa sensações físicas ruins quando ele pensa ou fala ou tenta fazer coisas ruins. E funciona. Ele sente vontade de vomitar e se sente doente toda vez que vê uma imagem das coisas que ele fez. Mas aí começa a briga dos “eleitores contra o Governo”, dizendo que esse método vai contra o livre-arbítrio do cidadão.

Problemática: A fala do personagem é transcrita toda numa gíria inventada por eles, o que torna o texto cansativo e às vezes chato. Parece que você está falando com um bebê: da-da-dá-gu-gu-gu.Se é apenas parte do texto, ok, mas abandonei Grandes Sertões por esse motivo: escrever conforme a fala, o livro TODO. A capa e a diagramação em papel diferenciado incentiva pegar o livro, mas as ilustrações são horríveis. Os textos extras também são bons.

Porque é bom? A escrita do autor, quando não usa palavras inventadas, é muito boa. Ele te convence a simpatizar com o monstro do Alex. Como faz isso? Fazendo ele usar palavras cultas, gostar de música clássica onde a Nona Sinfonia de Beethoven faz o fundo musical dessa história. E mostrando que tirar o livre-arbítrio da pessoa, pode tirar a parte ruim, mas leva a parte boa junto. O filme, do ótimo diretor Stanley Kubrick, peca por escolher atores tão velhos para o papel, mas já virou um clássico! (O livro é de 1962 e o filme de 1971.)

 

Trechos do Livro: “…a tentativa de impor ao homem, uma criatura evoluida e capaz de atitudes doces, que escorra suculento pelos lábios…afirmo que a tentativa de impor leis…” “A questão é se uma técnica dessas pode realmente tornar um homem bom. A bondade vem de dentro…bondade é algo que se escolhe.” “Pode não ser bom ser bom. Ser bom pode ser horrível. E quando digo isso a você, percebo o quão auto-contraditório isso soa.”

Muita Metafísica, Goodbye Mr. Hawking!

 

Esse post deveria se chamar: “Estragando o romantismo da bolha de sabão!” =/

O livro Uma Breve História do Tempo do Físico inglês Stephen Hawking (1942-2018) é um livro acessível pra quem gosta do assunto sobre como o universo foi criado. Em 238 páginas ele conta suas pesquisas e muita teoria sobre os assuntos da física que o tornaram muito famoso na área acadêmica. A teoria sobre os irmãos gêmeos é fantástica. Seus livros e sua vida, transformados em filmes, o tornaram celebridade, auxiliando no caríssimo tratamento para sua doença genética, que esse livro nos faz esquecer por um momento. O filme A Teoria de Tudo  de 2014 baseado em um livro, me fez ver o quanto de”gênio” e de “genioso” ele foi. O documentário mostra suas pesquisas. Dizem que a música Neutron Star Colision foi inspirada na página 144 desse livro.

Trechos do livro: “…em 340 a.C., o filósofo grego Aristóteles foi capaz de apresentar em sua obra Sobre o Céu, dois bons argumentos para a crença de que a terra era uma esfera redonda , e não um prato achatado.” “em um universo infinito, todo ponto pode ser considerado o centro, pois todo ponto tem um número infinito de estrelas de cada lado.” “O único modo de evitar a conclusão de que o céu noturno devia ser tão brilhante quanto a superfície do sol seria supor que as estrelas não brilhavam desde sempre, mas que haviam sido acesas em algum momento finito no passado.” “Laplace …sustentou…que o universo era totalmente determinista…e presumiu que havia leis semelhantes governando tudo o mais, incluindo o comportamento humano.” “…da interferência no caso da luz é o das cores que vemos em bolhas de sabão. Elas são causadas pelos reflexos da luz nos dois lados da fina película de água que forma a bolha.” “…em princípio a mecânica quântica nos permite prever quase tudo o que vemos à nossa volta, dentro dos limites estabelecidos pelo princípio da incerteza.” “Aristóteles acreditava que toda a matéria do universo era feita de quatro elementos básicos – terra, ar, fogo e água. Esses elementos eram regulados por duas forças: gravidade (tendência da terra e da água de afundar) e leveza (tendência do ar e do fogo de subir).” “Pode haver antimundos e antipessoas totalmente feitos de antipartículas.” “De onde elas (as pessoas) vieram? A resposta é que, na teoria quântica, as partículas podem ser criadas de energia, na forma de pares de partícula/antipartícula. Mas isso apenas nos leva a perguntar de onde veio a energia.” “…o que chamamos de tempo real é apenas fruto de nossa imaginação…”

Um Livro que Cumpre Todos os Desafios Literários! =D

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O livro A Misteriosa Chama da Rainha Loana, do escritor italiano Umberto Eco, com 447 páginas, consegue cumprir vários, se não todos os desafios literários. O que pode ser encontrado nele?

  1. Livro com figuras
  2. História em quadrinhos
  3. Poesia
  4. Música
  5. Romance Ilustrado
  6. Jornal
  7. Guerra
  8. Política
  9. Religião
  10. História
  11. Filosofia
  12. Cinema
  13. Coleção de Selos

O autor conta a história de um livreiro que perde a memória e após voltar do coma, com a ajuda da família, retorna à casa de sua infância para tentar recuperar os acontecimentos através da biblioteca de jornais, livros e revistas de seu avô. Contada em primeira pessoa por um desmemoriado (narrador não-confiável), que consegue se lembrar de vários textos decorados de seus autores favoritos, mas não consegue se lembrar de sua família e seus amigos. O autor mostra que novamente ele usou uma extensa pesquisa sobre Acervos do período da segunda guerra. Tem uma comparação do esquecimento com a névoa que é citada em vários autores clássicos, como um mistério a ser desvendado. Tem piada machista, racismo, ironia sobre religiões, ironias sobre a guerra. O título do livro veio de uma Hq que ele compara a chama aos impulsos elétricos  da memória.

Trechos do Livro: “Você lembra de idéias e hábitos, mas não de sensações, que no entanto são as coisas mais suas.” “Desculpe. Não consigo dizer nada que me venha do coração. Não tenho sentimentos, só ditos memoráveis.” “…prateleiras cheias de livros… Pela primeira vez tinha a impressão de estar num lugar onde me sentia à vontade.” “…as citações são meu único farol na neblina.” “…você tem uma memória de papel. Não de neurônios, de páginas.” “…um psicólogo lhe contou que em toda sua carreira nunca encontrara uma criança neurotizada por um filme (mortos-vivos), exceto uma vez…irremediavelmente…fora arruinada por Branca de Neve” “Não me espanto com o que aprendo, que só confirma o que compreendi sozinho. Mas o pensamento de que alguém me surpreenda enquanto leio, e perceba que percebi…” “Sonhamos falsas lembranças. Por exemplo, lembro que sonhei mais de uma vez que finalmente voltava a uma casa que não visitava há muito tempo…percebia que a lembrança pertencia ao sonho…nos sonhos nos apossamos das recordações de outros.

“Mas aonde vais bela da bicicleta

tão depressa pedalando com fervor

tuas pernas esbeltas, torneadas, lindas

em mim já semearam

no coração esse ardor.

Mas onde vais c’os cabelos ao vento

o coração contente e o sorriso

encantador…

Se quiseres, e quando quiseres,

chegaremos ao limite do amor.”

Literatura LGBT

Primeiro eu li o livro, depois eu vi o filme. Minha edição é essa da Editora Siciliano, com o título Carol, com 247 páginas da autora Patricia Highsmith. Em outros países ele foi publicado com o título original: The Price of Salt, publicado nos EUA em 1952. O livro conta a história de Therese (que é o personagem principal), que trabalha numa loja no período de natal e conhece uma mulher rica que aparece pra comprar um presente para a filha. Ela se sente atraída e faz de tudo para vê-la de novo. Apesar de ter um romance com seu primeiro namorado, um personagem sem graça, ela vê na Carol, a oportunidade de mudar o que está vivendo e a está deixando incomodada: o emprego, o namorado, os amigos, a cidade. Então ela faz uma road-trip com Carol e aí as duas se envolvem emocionalmente e fisicamente.

O livro mostra mais o ponto de vista da Therese, apesar de contado em terceira pessoa. Então vemos como ela abandona tudo pra ficar com Carol e como Carol não pode abandonar o ex-marido por causa da filha, e toda a raiva de Theresa por não entender a mulher casada e com filha, já que ela só tem dezenove anos. O filme mostra a vida das duas, o que cada uma perde e ganha, quando resolvem se envolver numa época em que a sociedade aceitava esse fato como argumento para a perda da guarda de uma criança.

Nesse livro tem um Posfácio escrito pela autora, ela assume que a personagem Therese é baseada em sua esperiência. Mas o jornalista Jim Dawson, do The Guardian revelou na época do filme que …”Houve outra inspiração para o personagem de Carol: Virginia Kent Catherwood, a ex-amante de Highsmith, uma socialite elegante e endinheirada da Filadélfia, cujo divórcio na década de 1940 tinha mantido colunistas de fofocas em Nova York em um estado de delírio escandalizado com a sua intriga lésbica… Catherwood tinha perdido a custódia de seu filho depois de uma gravação feita dela em um quarto do hotel com outra mulher e usada no processo contra ela.”

Trechos do Livro: “…eram os procedimentos complicados …a sensação de que todo mundo estava…vivendo num plano completamente errado…” “Acho quue o sexo flui em nós mais devagar do que a gente acredita, principalmente do que os homens…as primeiras aventuras…nada mais são que satisfação de uma curiosidade…” “Tinha inveja dele. Invejava-lhe a fé de que sempre haveria um lugar, um lar, um emprego, alguém para ele. Invejava-lhe esta atitude. Quase que se ofendia com ela.”