Manipulação do Narrador?

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O livro O Torreão (The Keep) da autora americana Jennifer Egan conta em 238 páginas a história de Danny um rapaz que faz uma brincadeira de mau-gosto com seu primo quando crianças e agora que está adulto e ferrado – seu primo está rico – recebe uma oferta de emprego dele. Mas esse emprego é do outro lado do mundo num castelo em ruínas.  Danny esteve preso, se envolveu com gente errada e agora que chegou ao castelo, começa a ter visões, ouvir vozes e pensa que seu primo quer se vingar. O lugar não tem tecnologia, fica longe das cidades, sem internet, sem telefone. Essa história é contada em primeira pessoa, mas os capítulos intercalados, ouvimos a voz do narrador em terceira pessoa contando a história de Ray que está preso e que escreve a história de Danny no curso de escrita da prisão.

A autora consegue manipular a linha do tempo dos personagens, conta histórias intermediárias, sobre a pessoa que mora no torreão, sobre a morte na piscina, sobre a fuga da prisão, sobre outros personagens. ficamos à merce de sua escrita para que ela conecte todos, mas ela vai eliminando as dicas e preservando a loucura/sanidade dos personagens para que o leitor decida: o que você viu?

Problema com o livro: a tradução: “Acabou indo parar na cidade bacana, em vez de na cidade xexelenta…”

Trechos do livro: “O verdadeiro alto agia de duas maneiras: você via, mas também podia ser visto, você conhecia e era conhecido.” “Os amigos de Danny eram todos jovens – eles ficavam jovens, porque no momento em que se casavam e começavam a ter filhos, as amizades morriam e eram substituídas por outras novas…ele precisava ser jovem…” “…vivia mais ou menos num estado constante de expectativas de alguma coisa, a qualquer dia, a qualquer hora, uma coisa capaz de mudar tudo…”

Existe um outro livro de mesmo nome, do autor F. Paul Wilson que deu origem a um jogo famoso na América:

Qual é o caso, Sr detetive? :/

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O livro Cinza e Osso do autor londrino John Harvey conta em 443 páginas a história de um ex-policial que é convidado a ajudar num caso de assassinato. Ele já está morando no interior, aposentado, sozinho e adorando seu lifestyle. O que faz ele voltar pra Londres? Uma ex-colega de trabalho é assassinado num crime brutal igual ao que ocorreu com sua filha.

Problemas com a história: o detetive parece bom mas tem problemas em conversar com a filha e a ex-mulher. Parece que ele não está presente à cena quando está com uma das duas. Tem várias histórias acontecendo e elas tentam se conectar. A tradução tem umas linhas non-sense: “Folhas da pereira do quintal ao lado coalhavam a grama.” Fui procurar o que é “coalhavam” – figura abaixo:

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Spoiler: Ele se junta com um amigo, que pede a ele pra verificar um outro policial, que pode estar envolvido com venda de drogas, então ele descobre que a filha foi presa com drogas, e aceita verificar esse episódio. Aí tem uma ex-dona de bordel, que “ajuda” a descobrir corpos de duas irmãs desaparecidas. O caso não tem um final satisfatório porque o assassino não confessa, e eles parecem “criar” a prova, como um dos policiais disse que fazia. Mas vale a pena a leitura porque tem o suspense e um pouco de tensão em algumas cenas, mas o “assassino” 1 e 2 foram previsíveis.

O cotidiano inventado

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Nesse livro Cenas Brasileiras de 112 páginas a autora nacional Raquel de Queiroz conta várias cenas da vida cotidiana, principalmente do nordeste brasileiro, onde viveu. A autora cearense foi a primeira mulher a entrar na academia brasileira de letras, em 1977. O livro faz parte da coleção Para Gostar de Ler da Editora Ática.

Gostei de alguns contos, todos muito dramáticos, com algum humor. Não li nenhum de seus romances, mas assisti a minissérie Memorial de Maria Moura, adaptada de livro de sua autoria. O conto que gostei se chama Metonímia, ou a Vingança do Enganado.

Trechos do livro: “A impressão geral que me ficou do inquérito é que de amor entendem mais os velhos do que os moços, ao contrário do que seria de imaginar. E menos os profissionais que os amadores -digo os amadores da arte de viver…” “…meio sonhadora, sorrindo vago, olhando o moço, e quem sabe até mesmo procura se convencer de que ele é filho de um pecado que ela não pecou, no barco pintado de azul, enquanto aquentava ao sol…”

A premissa era boa :/

O livro Mulher da Cor do Tango da autora argentina Alicia Dujovne Ortiz, conta em 254 páginas a história da francesa Mireille que mora numa casa de prostituição e é a favorita do anão que a pinta em um quadro (esse retratado na capa). Ela é ruiva e gosta de usar meias transparentes verdes. Um argentino aparece na cidade e diz que ela poderia ganhar muito dinheiro nos bordéis de Buenos aires e ela vai com ele.

Cada capítulo mostra a trajetória dela em bordéis, se envolvendo com outros homens, as mentiras, as traições. Essa divisão dos capítulos faz o livro parecer um livro de contos sobre a mesma personagem. A premissa era de que a autora,  baseada em uma idéia descrita num texto do autor argentino Julio Cortázar, que cita a loira prostituta Mireille, amiga de Toulouse-Lautrec e por ele retratada no quadro Au salon de la rue des Moulins, seria a mesma rubia Mireya cantada em tango, finalizasse essa idéia. Colocar o nome desse autor me deixou com as expectativas muito altas.

Trechos do livro:”O importante era o desejo, não o motivo. Como Mireille era igual, se apaixonou e assim perdeu durante certo tempo sua notável capacidade de aproveitar o bom, porque o amor nos empobrece.” “Antes de envelhecer, ignoramos que merecemos o melhor. Quando sabemos, é tarde.” “É fácil ter princípios quando se come todos os dias.”

A HQ de um clássico nacional

O livro O Cortiço do autor nacional Aluísio Azevedo é sempre indicado em provas de vestibulares. Essa HQ sintetiza bem a história, com imagens fortes, com traços vulgares, isto é, sem a arte final elaborada.arte de Rodrigo Rosa e roteiro de Ivan Jaf.

Spoiler! Apesar de sua veia erótica, a história diz mais sobre agrupamentos humanos e seus problemas e conta a trajetória de João Romão, ele é o dono do cortiço, um português sem escrúpulo, tem como objetivo na vida enriquecer a qualquer custo. Ambicioso ao extremo, não mede esforços, sacrificando até a si mesmo. Seu pensamento gira em torno apenas do dinheiro, não se importa com ninguém, é um sujeito sem sentimentos, ética e moral. Passa por cima de tudo e de todos. Veste-se mal, dorme no mesmo balcão em que trabalha. Das verduras de sua horta, consome as piores e restante vende. Arranja uma escrava e se amiga com ela, rouba o dinheiro que ela junta pra alforria e “cria” uma carta falsa. Ao ficar com inveja do rico Barão, quer se casar com a filha dele e prepara uma armadilha pra se ver livre da escrava.

 

Uma história em quatro meses

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O livro Destino La Templanza, da autora espanhola María DueÑas, conta em 479 páginas a história de Mauro, que por fazer uma jogada inesperada com seu dinheiro, se vê deixando nas mãos do agiota mais temido, toda sua fortuna: uma mansão que pretende retomar , quando voltar do México e lhe pagar os juros. Mauro fez fortuna na mineração, mas vai para o México tentar fortuna em qualquer coisa. Lá ele ganha no jogo uma fazenda decadente onde antigamente se fazia vinho. Ele não pretende ficar com a casa, apenas vendê-la para voltar à Espanha. Mas a vida da família e das pessoas que viviam na casa, começa a envolver com sua própria vida. E depois de muitos anos viúvo, se vê apaixonado.

Mas esse livro não tem cenas românticas descritas, é tudo muito imaginado. Algumas pessoas que estão na primeira parte do livro, não aparecem mais, outros personagens só passam pela história. gostei mais do primeiro livro dessa autora.

Trechos do Livro:”Assim foi selado o acordo mais mesquinho de sua vida…os documentos de sua derradeira propriedade…” “Para os espanhóis, os criollos eram inferiores pelo simples fato de terem nascido na América, tendiam à preguiça e a inconstância…” “Coisas mais estranhas já havia visto apostarem sobre uma mesa de bilhar…”

O amor nos tempos de guerra

O livro A Professora de Piano da autora chinesa Janice Y. K. Lee conta em 382 páginas a história de um casal inglês nos anos 40, que acaba de se conhecer e casar, vai morar na China do pós guerra, onde o marido vai trabalhar na reforma dos dutos de água. Ela, uma mocinha inglesa fútil, fica andando pelas feiras e conhecendo o lugar. Nos encontros com as esposas dos outros ingleses, que já moram lá há mais tempo, ela fica sabendo que pode dar aulas para as filhas dos chineses ricos. Mesmo sabendo só o básico de piano, torna-se professora da filha de um rico negociante chinês. Seu tempo ocioso faz com que arranje um amante, um inglês que mora tanto tempo na China, que se passa por um deles. Ela gosta do marido dócil. Ela gosta do “chinês” que a trata friamente.

A segunda história é da epoca da guerra entre China e Japão, onde descreve os soldados japoneses em detalhes brutais e selvagens.

No final as duas histórias se cruzam de forma já esperada e não há um verdadeiro mistério a ser revelado.

Trechos do Livro: “Eles tinham opiniões sobre política, haviam lido livros dos quais ela jamais ouvira falar e visto filmes estrangeiros, sobre os quais conversavam muito seguros de si.” “_Mas parece um comportamento fora das leis da lógica. _Tudo o que tem a ver com mulheres é fora das leis da lógica.” “Em tempos assim você se preocupa com as coisas básicas: o que comer, onde cagar, encontrar um lugar para dormir. É isso que o impede de ficar maluco.” “Todo mundo só quer viver a própria vida em paz, ganhar um dinheirinho, fazer um amorzinho, morrer com um pouco de comida na barriga. Só isso.”