Literatura oriental

O livro A Última Imperatriz do autor Da Chen, que nasceu na China mas foi estudar e escrever nos Estados Unidos, tem na ficha catalográfica “Romance Chinês”. Em 221 páginas ouvimos a história em primeira pessoa de um americano se apaixona por uma filha de missionários que viveu na China e após a morte dela, ele resolve seguir seus passos até aquele país do qual ela falava tão bem. E começam as aventuras quando ele consegue ser convidado para ser tutor do atual Imperador. Ao ir morar dentro dos muros do palácio, o narrador que ainda conversa com o fantasma de sua amada, vê na atual Imperatriz a reencarnação do amor que perdeu. Isso não traz muitos problemas já que a imperatriz anterior quer destronar seu enteado e procura situações para que isso aconteça.

Problemas: poderia ser um drama, que fala de vícios em drogas, incesto, pedofilia, perda do ser amado. Mas o autor quer contar na voz do narrador que parece não ter noção que é um estrangeiro, num país com cultura e leis diferentes, que fisicamente é impossível uma americana loura ser confundida com uma chinesa. Se não fosse a voz do narrador em primeira, poderia mostrar mais a loucura do personagem. Nem a luta pelo poder faz a história ter um final que seja coerente com a sinopse da contra-capa.

Anúncios

Três livros de poesia moderna

1. Sementes de Sol do autor nacional Carlos Queiroz Telles com 63 páginas. Lançado em 1992, pela Editora Moderna, sua ficha catalográfica diz literatura infanto-juvenil. Devia ser apenas poesia-juvenil. Com desenhos de May Shuravel, as poesias falam de crianças, adolescentes e amor não correspondido. São poesias que falam da diversidade de gênero, de raça, de não se sentir bem na própria pele. Bom para trabalhar com a última série do ensino fundamental ou ensino médio.

2. Brincando de Amor da autora nacional Ilka Brunhilde Laurito também tem ilustrações de May Schuravel e uma dedicatória ao autor do livro 1. Ficha catalográfica também dizendo que a linguagem é infanto-juvenil, mas com uma linguagem jovem, não tem nada de infantil. Como no título diz, as poesias falam do amor dos jovens de antigamente, que tinham limites mais rígidos que os atuais. Não atende requisitos infantis e é muito infantil pros jovens.

3. COM fissões é um livro diferente, conceitual, curioso. Da autora mineira Josely Bittencourt usa das invenções de palavras novas pra falar de relações. Ela é Mestre em Estudos Literários e nesse livro reinventa a separação de sílabas, a ortografia e os significados das palavras. Com divisões como “superfíssie“, ela quebra regras de escrita e de métrica. Mas por ousar demais, peca em entregar uma poesia desconexa, sem emoção, sem deixar marcas no leitor. E com conteúdo adulto, não recomendo para usar em sala de aula do ensino fundamental.

Romance Histórico

O livro Adorável Marquesa do autor Andre Lambert conta em 365 páginas a história da França no período de 1729 a 1764, tendo como personagens o rei Luis XV e a sua amante Madame de Pompadour. Uma nota do tradutor Gilberto de Alencar, conta que as biografias que existem sobre Joana Poisson, a tratam de forma a desmerecer sua ascensão da burguesia à realeza. Ela se tornou a favorita do rei, mas não a única. A Revolução Francesa ajudou a destruir sua imagem destruindo todo os traços de suas atividades artísticas: construção de castelos, obras de arte e outros tesouros.

Joana, filha de um casal do povo, colocada numa boa escola interna graças à sua mãe que aproveitando o exílio do marido, se une a um homem aristocrata e causa escândalo. Ao voltar do exílio o marido aceita a situação porque vê nela a chance de sua filha entrar na sociedade. Mas nem o casamento com um homem da sociedade faz Joana feliz. Em um passeio ela encontra o Rei, se apaixona por ele que já tinha uma rainha e várias amantes. Ao criar intimidade com o rei, Joana cria um problema na côrte, onde se vê envolvida em intrigas, assassinato e traições. Mas o amor do rei bastava a Joana. Assim como representar no teatro. Conseguindo depôr desde a amante anterior até conselheiros e homens de confiança do rei, Joana pensa que criou um círculo de amizade e confiança. Mas as intrigas do palácio continuam até o dia de sua morte vinte anos depois.

Esse livro faz parte da Coleção Grandes Mulheres Da História da editora Itatiaia, publicado em 1974 vem sem ficha catalográfica ou informações sobre o autor.

Aventura nacional

O livro O Perigo me Procura do autor nacional Wilson Rocha, conta em 159 páginas a história de Messer, herdeiro da tia rica, com quem vive na Europa, suas aventuras vêm de seus muitos livros. Para quebrar essa segurança toda, aparece para uma visita, seu primo brasileiro. Traz toda uma mudança de rotina para a casa e para a vida dos dois. George é expansivo, alegre, divertido, gosta de garotas e festas. Acontece um acidente e a tia de Messer (e também de George) morre. Então Messer se vê embarcando junto com o primo numa aventura rumo ao Brasil.

A história tem um cunho social e ecológico, mostrando o abandono social que a tia rica faz ao escolher um sobrinho pra levar pra Europa e deixar o outro no orfanato e os efeitos desse abandono no jovem. Ao colocar a aventura na Amazônia, coloca em pauta toda a devastação das terras, as queimadas, a venda ilegal de árvores, a briga entre os índios e os madeireiros. Continua atual mesmo tendo sido escrito em 1998. O autor que foi um dos roteiristas do Sitio do Picapau Amarelo, faleceu em 2014.

Problemas: esse não é um livro “infanto-juvenil” como marcado na ficha catalográfica. Juvenil sim, porque adolescentes já entendem o certo e errado.

Trechos do Livro: “Todos têm o direito de optar por se manterem fracos-dizia ela-Ninguém é obrigado a viver disputando medalhas para provar que é melhor que outros!” “Messer não utilizava mais o cérebro. Desistira por completo de pensar, refletir, raciocinar, calcular, imaginar. Rendera-se ao inevitável, odiando-se por sua fragilidade, por seu despreparo para a aventura.”

Ler não te Faz Melhor que Ninguém 🤨

“Quanto ao talento alheio seremos nós também que iremos decidir quem tem e quem não tem apontando ainda quem escreve mal e quem escreve bem.”

O livro As Eruditas do autor francês Molière, conta em 146 páginas a deliciosa história de um grupo de mulheres que decidem criar regras de quem é intelectual e quem não é, de acordo com suas interpretações. Elas convidam um “tosco” poeta pra declamar em suas reuniões e suspiram a cada frase que ele diz. Essas reuniões são na casa de Filomena, uma rica dama que tem duas filhas: a mais nova se interessa por filosofia e por isso não aceita a corte de Cristovam por quem Henriqueta a irmã mais velha é apaixonada. Quando Cristovam vê que Henriqueta também acha o poeta um imbecil, descobre que os dois têm muitas afinidades e se apaixona, pedindo ao pai dela, sua mão em casamento. Mas a sua mãe, tentando melhorar o lado cultural da filha, quer casa-la justamente com o poeta. O poeta vê nesse casamento a chance de receber um bom dote.

Essa comédia escrita em 1672 ainda traz uma reflexão para o atual momento em que as pessoas se acham no direito de “cobrar” leituras das pessoas só porque elas tem um partido político diferente, ou outra religião… Vejo frases do tipo “…livro…remédio pra curar a ignorância.” Pessoas portando livros já mataram outras pessoas. Assim como letra de música, cada um interpreta conforme sua bagagem cultural. Alguns vão ler livros dos grandes pensadores, outros vão ler quadrinhos. Alguns vão ouvir audio-books. A ironia da tradução de Millôr Fernandes deixa o texto divertidíssimo. 😀

Trechos do livro:”A mim pouco me importa que quando está cozinhando, ela coloque mal concordância e regência, diga palavras grosseiras, solte palavrões, e decline de forma errada: desde que não queime a minha carne assada. Me interessa mais a língua na panela do que na boca dela.” “Em princípio, contudo, lhe adianto que meu principal objetivo é colocar a mulher na posição que merece, pois o que nos deixa mais humilhadas é a situação de inferioridade a que fomos relegadas.” ” Por natureza eu sou peripatético. Mas acho uma boa posição, não ter nenhuma.”

Como um programa sensacionalista =/

O livro O Assassino Cego da autora Margaret Atwood, conta em 493 páginas duas histórias. A primeira delas uma senhora idosa relembra toda sua vida ao se ver perto de morrer. Seus fantasmas do passado a atormentam: a morte da mãe; seu casamento arranjado por seu pai que estava falido; a morte da irmã que se torna escritora póstuma; a morte do marido e a perda da guarda de sua filha.

A segunda história, que dá título ao livro, mostra um casal de amantes, que a cada encontro, ele a presenteia com uma parte da história desse assassino. Uma história cheia de mortes, sexo, fugas, fantasia, distopia, ficção cientifica. (Ufa!) E ainda tem os “recortes” do jornal da época, mostrando as notícias na coluna social, fases da vida da protagonista.

As duas histórias se unem na página 300 mas agente já sabe disso desde a página 100. Então parece aqueles programas policiais ou dramáticos, em que a mesma frase é repetida pra dar ênfase; e o apresentador dá uma pausa na melhor parte e diz “voltamos depois do comercial”. Ela demora pra contar um “segredo” que já ficou claro! A gente até torce pra que a autora nos surpreenda nas últimas linhas, mas isso não acontece.

Trechos do livro:” Havia um monte de deuses. Deuses sempre ajudam, servem de justificativa para quase tudo…” “Eu não devia submeter meu coração a tais testes, agora que fui informada de suas imperfeições; entretanto, sinto um prazer perverso em fazê-lo, como se eu fosse um brutamontes e ele um bebê chorão cujas fraquezas desprezo.” “Era como se eles tivessem bebido uma porção mágica que iria mantê-los afastados para sempre, mesmo que vivessem na mesma casa, comessem na mesma mesa, dormissem na mesma cama.” “Nenhuma criança do sexo masculino deve permanecer viva para crescer cultivando a sede de vingança por seu pai assassinado; nenhuma criança do sexo feminino para corromper o povo da alegria com seus modos depravados.”