Descobrindo novos autores =)

zambra

Mas há momentos em que não podemos, não sabemos nos perder. Ainda que tomemos sempre as direções erradas. Ainda que percamos todos os pontos de referência…E talvez tenhamos saudade do tempo em que podíamos nos perder.”
O livro Formas de Voltar pra Casa do autor chileno Alejandro Zambra, conta em 157 páginas a historia de relembranças, dos tempos de criança num bairro longe da ditadura que acontecia nas grandes cidades. O personagem principal é um escritor, que não sabemos se já estabelecido ou não, está às voltas de escrever um livro e incluir sua ex-mulher e seus pais. Mas ele não se lembra bem da história deles. Então ele começa a se lembrar da menina de quem gostou na infância, das ruas que ele percorria para encontrá-la. E transforma tudo isso em uma outra história.
Trechos do livro: “…mas naquela tarde  achei que tinham se perdido. Que eu sabia voltar pra casa e eles não.” “As ruas de Maipú não eram, então, perigosas? De noite sim, e de dia também, mas, com arrogância ou com inocência… os adultos brincavam de ignorar o perigo: brincavam de pensar que o descontentamento era coisa de pobres, e o poder, assunto dos ricos…” “Por um segundo pensei que ela mentia, apesar de nunca ter mentido sobre essas coisas…Nosso problema foi justamente esse…fracassamos pelo desejo de ser honestos sempre.” “Ou então é que eu gosto de estar no livro. É que eu prefiro escrever a já ter escrito. Prefiro permanecer, habitar esse tempo…” “Vivíamos com poucas palavras e era possível responder a todas as perguntas dizendo: não sei.”

 

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Liberado para alunos? =/

noite

O livro Noite na Taverna do autor nacional Álvares de Azevedo, é uma espécie de livros de contos de terror. Em 86 páginas temos cinco amigos mais o narrador que estão em uma taverna bebendo já algum tempo e resolvem contar histórias de loucuras de amor, do ato de fazer amor literalmente. E essas loucuras incluem amar uma moça e descobrir ser sua irmã (incesto); amar a mulher do seu “salvador” e traí-lo sequestrando a moça; amar a mulher do patrão e fazê-la cometer um crime; amar uma moça que morre e trazê-la de volta à vida (necrofilia).  Nenhuma das histórias termina bem, mas nenhuma delas pode ser verdade, já que todos sobreviveram a essas histórias absurdas, dramáticas e aterrorizantes. “…o sentido geral de todas elas é único: as paixões mais intensas são fatais e levam os amantes a todo e qualquer tipo de transgressão; os que não morrem delas viverão condenados ao remorso eterno…”

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Literatura da época do Romantismo brasileiro, narrativas que idealizavam a mulher amada como objeto de adoração e que misturam amor e morte, esse livro foi publicado em 1855. Vê-se no autor a influência européia na escolha dos nomes dos personagens, nos lugares onde se passam as narrativas e nas citações de poetas e filósofos estrangeiros. Já foram lançadas Hq e várias escolas já postaram trabalho de alunos do Ensino Médio sobre o livro. Minha opinião: muito drama, pouca história. Existem livros mais interessantes desse período pra indicar aos alunos.

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dia das mães/luto…

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Para sempre … (Carlos Drummond de Andrade)

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
– mistério profundo –
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

 

Mais uma chance, por favor.

Um-Rio-Chamado-Tempo-Uma-Casa-Chamada-Terra-Mia-Couto

O livro Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra do escritor de Moçambique, Mia Couto, conta em 260 páginas a história de uma família que se reúne na casa do avô para o velório do mesmo. Filhos, netos, esposa, amante e amigos, todos devem cumprir o ritual do enterro. Só que o médico se nega dar o laudo dizendo que o morto ainda não está completamente morto. E enquanto o morto não morre, a família resolve refazer toda a história do falecido e refazer suas próprias histórias em torno da casa da família.

Contada em primeira pessoa pelo neto do falecido, é um texto irônico, me lembrando crônicas brasileiras, com a grafia do português de Moçambique, mas com glossário nas últimas páginas, não prendeu minha atenção. Talvez eu tenha começado pelo livro  errado do Mia Couto; ainda vou dar outra chance pra mim.

Trechos do livro: “morto amado nunca mais pára de morrer.” “_Não quero sair nunca mais._Tem medo de quê?_O mundo já não tem mais beleza.” “A dor pede pudor. Na nossa terra, o sofrimento é uma nudez–não se mostra aos públicos.” “Mas a vila é ainda demasiado rural, falta-lhe a geometria dos espaços arrumados.” “Para ele era claro: Fulano tinha a sua fé exclusiva, fizera uma igreja dentro de si mesmo.” “Lá na cidade ouvi dizer que vocês já usam modos dos brancos. E dão-se às mãos e até se beijam às vistas do público.”

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O amor não realizado e a transição política

O livro Esaú e Jacó, penúltimo livro de Machado de Assis, com 277 páginas, publicado em 1904, foi escrito em uma época de transição na política brasileira: o país deixava de ser uma Monarquia para ser uma República. Então o livro conta a história de duas famílias vivendo esse momento político. A família dos gêmeos Pedro e Paulo (sim! o título do livro é só pra te enganar – não existem personagens com esses nomes) que querem e vão ser advogado e médico e futuramente deputados, e a família da moça Flora, apaixonada pelos dois irmãos e objeto de paixão dos mesmos. Gêmeos idênticos, mas com personalidade diferente, os dois fazem um acordo de “sair de campo” quando Flora escolher um deles. Mas a moça começa a ter alucinações de que os dois são um só, porque gosta de ambos, então enfraquece e morre. E os dois seguem concorrentes na vida.

No livro aparece Aires, um personagem de outro livro de Machado. O autor escreve como se estivesse conversando com ” a leitora”. Em alguns capítulos ele chega a contar o que vai acontecer no próximo. Achei que ele queria contar uma história e resolveu mudar o roteiro no final do livro. Pra não se parecer com os personagens do título.

Trechos do livro: “Eis aí vinha a realidade do sonho de dez anos, uma criatura tirada da coxa de Abraão, como diziam aqueles bons judeus, que a gente queimou mais tarde, e agora empresta generosamente o seu dinheiro às companhias e às nações. Levam juro por ele, mas os hebraísmos são dados de graça.” “…enquanto ele enfiava uma beca no jovem advogado…também lhe ensinava a enriquecer depressa; ajudá-lo-ia começando por uma caderneta na Caixa Econômica…” “Nada disso foi escrito como aqui vai,, devagar, para que a ruim letra do autor não faça mal à sua prosa.” “Não amava o casamento. Casou por necessidade do ofício; cuidou que era melhor ser diplomata casado que solteiro…” “O salto é grande, mas o tempo é um tecido invisível em que se pode bordar tudo, uma flor, um pássaro, uma dama, um castelo, um túmulo.” “A abolição é a aurora da liberdade; esperemos o sol; emancipado o preto, resta emancipar o branco.”

Livro pra Vida! =D

 

cartas

O romance epistolar Cartas a Um Jovem Poeta, do poeta alemão Rainer Maria Rilke, são cartas que o jovem Franz Kappus recebeu do Rilke, entre 1903 e 1908, quando lhe pediu conselhos sobre a escrita e em vez de aconselhar, ele lhe falou da vida, dos amores e da necessidade de se conhecer, tudo escrito em forma de poesia, não de estrofes e rimas, mas de ritmo e de leveza.                                                                                                                      Essa edição da Globo, com 111 páginas, tem uma capa maravilhosa que mostra um pote de nanquim aberto, da fotógrafa Regina Stella; tem Prefácio escrito por Nei Duclós e Cecilia Meirelles; tem uma introdução do jovem Franz que também disponibilizou o poema citado nas cartas: A Canção de Amor e de Morte do Porta-Estandarte Cristóvão Rilke.

Trechos do Livro: “Depois de feito esse reparo, dir-lhe-ei ainda que seus versos não possuem feição própria, somente acenos discretos e velados de personalidade.” “Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde. Não escreva poesias de amor.” “Um mundo se abrirá aos seus olhos: a felicidade, a riqueza, a inconcebível grandeza de um mundo.” “O amor de duas criaturas humanas talvez seja a tarefa mais difícil que nos foi imposta, a maior e última prova, a obra para a qual todas as outras são apenas uma preparação.”

carta

EM FORMA DE POESIA.

LIVRO

O Livro das Perguntas do escritor e poeta Pablo Neruda com 78 páginas, nos mostra questionamentos a respeito de tudo: desde porque o mar é salgado se os rios são doces até porque o mel é amarelo e não azul. Lançado em 2006 com ilustrações de Isidro Ferrer, este não me pareceu um livro infantil, categoria escrita na ficha catalográfico do livro. Nem todo livro ilustrado pode ser utilizado em sala de aula, esse é um exemplo. As poesias são parecidas com o Haicai, forma de poesia oriental, sem quadras, sem rimas, desconexas. Algumas das colagens feitas pelo ilustrador são interessantes, principalmente as que mostram ele próprio e o autor. O livro tem muitas citações que só leitores mais experientes vão entender: “Tem mais folhas uma pereira que Em Busca do Tempo Perdido?”, numa clara menção à obra de Proust; “Onde plantaram os olhos do camarada Paul Éluard?” citando o poeta francês; “Quando escreveu seu livro azul Rubén Dario não era verde?” poeta nicaraguense; e muitos outros poetas. Mas não adianta apresentar o texto aos alunos e simplismente dizer quem era Proust. Tem uma contextualização subjetiva para que ele fosse citado nesse poema/pergunta. E isso não é aconselhável numa aula de poesia como explica a  educadora Isabel Furini  “As aulas de poesia para crianças devem ser lúdicas. Será necessário fazer ênfase nos efeitos de sonoridade, de cores, de imagens, de movimento…nem todos os alunos terão habilidade poética.” Então mudaremos a categoria desse livro para adulto =)

Algumas perguntas realmente soam poéticas: “As lágrimas que não choramos esperam em pequenos lagos? Ou serão rios invisíveis que correm para a tristeza?” “Porque se suicidam as folhas quando se sentem amarelas?” “Sofre mais quem espera sempre ou quem nunca esperou ninguém?”