Como um programa sensacionalista =/

O livro O Assassino Cego da autora Margaret Atwood, conta em 493 páginas duas histórias. A primeira delas uma senhora idosa relembra toda sua vida ao se ver perto de morrer. Seus fantasmas do passado a atormentam: a morte da mãe; seu casamento arranjado por seu pai que estava falido; a morte da irmã que se torna escritora póstuma; a morte do marido e a perda da guarda de sua filha.

A segunda história, que dá título ao livro, mostra um casal de amantes, que a cada encontro, ele a presenteia com uma parte da história desse assassino. Uma história cheia de mortes, sexo, fugas, fantasia, distopia, ficção cientifica. (Ufa!) E ainda tem os “recortes” do jornal da época, mostrando as notícias na coluna social, fases da vida da protagonista.

As duas histórias se unem na página 300 mas agente já sabe disso desde a página 100. Então parece aqueles programas policiais ou dramáticos, em que a mesma frase é repetida pra dar ênfase; e o apresentador dá uma pausa na melhor parte e diz “voltamos depois do comercial”. Ela demora pra contar um “segredo” que já ficou claro! A gente até torce pra que a autora nos surpreenda nas últimas linhas, mas isso não acontece.

Trechos do livro:” Havia um monte de deuses. Deuses sempre ajudam, servem de justificativa para quase tudo…” “Eu não devia submeter meu coração a tais testes, agora que fui informada de suas imperfeições; entretanto, sinto um prazer perverso em fazê-lo, como se eu fosse um brutamontes e ele um bebê chorão cujas fraquezas desprezo.” “Era como se eles tivessem bebido uma porção mágica que iria mantê-los afastados para sempre, mesmo que vivessem na mesma casa, comessem na mesma mesa, dormissem na mesma cama.” “Nenhuma criança do sexo masculino deve permanecer viva para crescer cultivando a sede de vingança por seu pai assassinado; nenhuma criança do sexo feminino para corromper o povo da alegria com seus modos depravados.”

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Teor Adulto, mas é Balzac 😉

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O livro A Menina dos Olhos de Ouro é um romance breve de Honoré de Balzac com apenas 93 páginas, faz parte da obra História dos Treze. A história, baseada num quadro do pintor Eugène Delacroix La Morte de Sardanapale (abaixo), conta a história de uma moça que vive cercada de guardiões por causa de sua beleza, mas um jovem milionário entediado resolve possuí-la ao encarar seus olhos cor de mel. Os cabelos, não sabemos, já que no começo o autor diz ruivo e no final diz negro. Toda a aventura para se encontrar com a moça é cheia de detalhes assim como os locais do encontro: primeiro em um pardieiro, depois em um palácio. Ele se apaixona e se descobre usado por ela. E tem o trágico final como mostra a pintura. O romance é machista, traz termos que colocam a mulher como um simples objeto para o homem. Uma propriedade. O erotismo está todo detalhado nela, já que o rapaz só mostra o peito sem camisa. Também tem um filme francês de 1961.

Trechos do livro: “Não há mistérios para eles; conhecem a parte secreta da sociedade, da qual são confessores, e naturalmente a desprezam…Em cada momento o homem de negócios pesa os vivos, o homem de contratos pesa os mortos e o homem de leis pesa as consciências.” ” O prazer assemelha-se a algumas substâncias medicinais: para obter constantemente o mesmo efeito, é preciso dobrar a dosagem: no fim da linha encontra-se a morte ou o embrutecimento.” “…podem-se encontrar no mundo das mulheres grupos de pessoas felizes, capaz de viver do jeito oriental conseguindo guardar sua beleza…ficando ocultas feito plantas raras que abrem suas pétalas em horários determinados…”

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Menina Má

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O thriller psicológico Menina Boa, Menina Má da autora Ali Land, mostra nas 372 páginas a versão da protagonista Annie/Milly que aos quinze anos resolve entregar sua mãe para a polícia e ser testemunha de acusação contra ela. Ela então troca de nome e vai morar provisoriamente com a família (?) do psicólogo que está cuidando do caso e que quer relatar essa história em um livro. Ela não se dá bem com a adolescente filha do casal e patricinha. Ela tem umas atitudes de menina mimada e que nunca passou por situações de aperto. Do meio do livro em diante o leitor já sabe que ela mente e não consegue ler acreditando o que realmente acontece na história. É só a versão dela, dos fatos, dos sentimentos – tanto dela quanto das outras pessoas. E é um livro muito triste. A autora foi enfermeira na área de saúde mental infantil e viu muitas narrativas como esta de onde nasceu este livro de estreia.

Trechos do Livro: “Tem uma biblioteca particular, fileiras de prateleiras cheias de livros, o restante das paredes pintado de malva. Dá uma sensação de estabilidade. De segurança. Ele me pega olhando as prateleiras e ri.” “Não demora muito. O grupo de adolescentes privilegiados, perfeitamente elegante e lindo, se transforma numa turba. Animais.” “A dor faz isso. Envelhece a gente com seu horror, mas também nos torna pequenos…”

Música, drogas e mulheres

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O livro A Perfeita Ordem das Coisas do autor canadense David Gilmour, conta em 167 páginas uma quase biografia, coisas da vida do autor, pessoas que ele conheceu são citadas nesse livro. O personagem principal, um escritor, resolve voltar aos lugares onde ele sofreu algum tipo de desventura para descobrir porque ele foi infeliz em tal situação. Então ele conta as viagens ao redor do mundo, o meio social onde vivia entre ricos e famosos, lugares onde passou as férias, hotéis, as mulheres com quem se envolveu. Uma volta ao passado como forma de auto-conhecimento.

Mas o que vejo é um personagem chato, arrogante, racista, drogado a maior parte do tempo. Ele contando como as ex mulheres o deixam e você torcendo por elas. Chega a dar raiva quando as ex o recebem em suas casas como amigos! Eu gostei muito do outro livro dele que li. Aqui.

Trechos do livro: “…minha grande libertadora…A garotinha cruel, que cresceu para se tornar uma adulta desonesta…forneceu-me a liberdade de quebrar as regras para toda a vida. Uma benção vinda de um monstro.”  “Escrevi alguns livros, nenhum dos quais teve grande vendagem, mas apenas pelo fato de eles existirem no mundo, ainda que em poucos exemplares…já me fazia sentir que eu era um cara descente, que não havia acabado feito “aquele outro” cara.”  “Guerra e Paz era um livro que eu evitara ler em toda a minha vida, um livro que, como o de Proust, é adequado somente para quem está cumprindo uma rígida pena de prisão.”  “Estava saturado de Beatles. Inventei um novo verbo: estar Beatle-out: amar alguma coisa como provavelmente não se vai amar nada mais, mas estar farto daquilo para toda a vida.” ” …é assim que se perde uma mulher… É apenas o acúmulo de pequenas facadas e ferimentos descuidados, até ela ter consciência, em uma volta da escada, ou parada diante de um sinal vermelho, que não quer mais estar ali…prefere viver sem nós.”

 

Romance ou apenas uma junção de Contos?

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O livro Oratório de Natal do autor sueco Göran Tunström conta em 346 páginas apenas uma história, mas cada parte é a história de um personagem que vão se conhecendo e todos estão relacionados. A história se passa parte na região sueca de Värmland e outra parte na Nova Zelândia. A escrita do autor é meio fragmentada, até se acostumar com o estilo de escrita, com a realidade e a imaginação, demora. Não conseguia saber se todos os personagens eram loucos ou apenas alguns. O tal oratório do título aparece apenas no começo e depois lá nas últimas páginas. Parece que é a música que une a família de Solveig a pianista que ensaia o coral, Aron o pai que faz lápides de mármore para os túmulos e os dois filhos. Aron fica viúvo e se apaixona por uma mulher “por correspondência” Viaja à Nova Zelândia para encontrá-la, abandonando os filhos, porque pensa ser ela a reencarnação de sua mulher que morreu. Enlouquece e pula no mar durante a viagem de navio. O filho adolescente se envolve com uma mulher muito mais velha e tem um filho com ela. A moca que correspondia com seu pai enlouquece após a morte de Aron. O último da família Victor ensaia o Oratório de Natal. Uma homenagem.

Não fiquei envolvida com a história, tem partes interessantes, muito teor adulto e demorei mais de um mês pra finalizar a leitura, significando que não vou lê-lo novamente.

Trechos do Livro:”Toda a família Bach trabalhava em conjunto e não se pode distinguir a caligrafia de Johann Sebastian da de sua esposa…” “Pode perambular pela floresta de palavras onde a luz espalha beleza e atrás de cada curva, no texto, descobrir algo novo: palavras como abóbada arqueada, como coroa das árvores, como troncos e línguas de fogo.” “Existem seres humanos cuja alma é multifacetada. Conseguem duplicar, sim, ou até multiplicar por dez sua existência, sua presença.” “…Fanny suspira. Tem trinta e seis anos e nenhum ser vivente até hoje sabe que sob seu seio direito existe uma marca de nascença, uma pequena mancha negra. Tem o cabelo preso para cima, trançado, e nenhum ser jamais o vira solto e nem sabe o seu comprimento. ” ” Acontece a mesma coisa…quando penso em meu pai, que ele não tem pernas e que é um pedaço de gente que mal pode aparecer na cidade. ..Que ele é como um pequeno fardo…Mas sou eu que o carrego nos braços e não o contrário. ..” “_Com certeza, nenhuma garota vai me querer. _Você quer dizer porque você lê. ..livros e coisas assim? ” “Hoje eu sou metade de um ser humano. Talvez algo que viesse preencher o vazio de minha vida seria saber que, de tempos em tempos, haveria uma carta para ser buscada, uma terra longínqua que pode ser idealizada. ..” “. ..sigo sob um disfarce, que meu nome não é meu, que meus pensamentos, meus verdadeiros sonhos não podem ser liberados pelo meu eu verdadeiro.” ” Era como se a tivessem tirado de um quadro da renascença italiana e colocado sob a luz de um poste numa rua de Sunne e ela ainda não tivesse despertado daquela viagem.” “Ser inteligente é fingir que aquilo que se faz é muito importante. ” ” Todos os seres criados serão representantes imperfeitos da criação. “

Proibido para Menores de 30. =0

O livro Laranja Mecânica do autor britânico Anthony Burguess, conta em 274 páginas (nesta edição comemorativa com 342 pág, com textos extras) a história de Alex e o livre arbítrio. Alex é um jovenzinho de 15 anos que tenta formar um grupo de desordeiros com mais três rapazes para “aterrorizar” o bairro onde mora. No começo da história, contada por ele mesmo,  ficamos sabendo que ele já foi preso anteriormente por esse motivo. E aí ele conta detalhes do sadismo, perversidade e anomalia do ser meio-humano que ele é. E não comete essas atrocidades porque está em grupo, não. Ele conta o estupro de crianças que ele pratica sozinho. E conta sobre a omissão de seus pais sobre sua conduta, quando deixa de ir à aula ou traz dinheiro pra casa. Então, ao ir novamente preso, pede pra participar de um programa do Governo que fará com que saia da cadeia pra nunca mais voltar. Esse sistema é um tipo de “hipnose/lavagem cerebral” que associa sensações físicas ruins quando ele pensa ou fala ou tenta fazer coisas ruins. E funciona. Ele sente vontade de vomitar e se sente doente toda vez que vê uma imagem das coisas que ele fez. Mas aí começa a briga dos “eleitores contra o Governo”, dizendo que esse método vai contra o livre-arbítrio do cidadão.

Problemática: A fala do personagem é transcrita toda numa gíria inventada por eles, o que torna o texto cansativo e às vezes chato. Parece que você está falando com um bebê: da-da-dá-gu-gu-gu.Se é apenas parte do texto, ok, mas abandonei Grandes Sertões por esse motivo: escrever conforme a fala, o livro TODO. A capa e a diagramação em papel diferenciado incentiva pegar o livro, mas as ilustrações são horríveis. Os textos extras também são bons.

Porque é bom? A escrita do autor, quando não usa palavras inventadas, é muito boa. Ele te convence a simpatizar com o monstro do Alex. Como faz isso? Fazendo ele usar palavras cultas, gostar de música clássica onde a Nona Sinfonia de Beethoven faz o fundo musical dessa história. E mostrando que tirar o livre-arbítrio da pessoa, pode tirar a parte ruim, mas leva a parte boa junto. O filme, do ótimo diretor Stanley Kubrick, peca por escolher atores tão velhos para o papel, mas já virou um clássico! (O livro é de 1962 e o filme de 1971.)

 

Trechos do Livro: “…a tentativa de impor ao homem, uma criatura evoluida e capaz de atitudes doces, que escorra suculento pelos lábios…afirmo que a tentativa de impor leis…” “A questão é se uma técnica dessas pode realmente tornar um homem bom. A bondade vem de dentro…bondade é algo que se escolhe.” “Pode não ser bom ser bom. Ser bom pode ser horrível. E quando digo isso a você, percebo o quão auto-contraditório isso soa.”

Maratona Literária =)

Maratona forçada: o estado onde moro – Espirito Santo – está em estado de caos com a PM em greve, exército nas ruas, estoque de água e comida…. Então, vamos ler!

O livro escolhido foi O Pintassilgo, da Donna Tartt, com 719 páginas, vencedor do Prêmio Pulitzer lançado em 2013. A história começa empolgante com o garoto, que conta sua história, indo ao museu com a mãe, e ao se afastar dela, o museu sofre um atentado e explode. Ele fica preso com um idoso que pede pra ele “salvar” a tela do passarinho que dá título ao livro e levar para seu parceiro de negócios numa casa de antiguidades. Citado como aluno inteligente, avançado em turmas na escola, com alto QI, mostra que nas coisas simples da vida, ele é um idiota. As dez primeiras páginas te deixa com gosto de quero mais. Há muitas descrições de obras de arte e de restaurações de móveis em um antiquário, pra quem gosta e conhece as obras, é um paraíso. ❤

Aí a história começa com dramas adolescentes, muita droga, efeito das drogas, delírios provocados pela droga, roubo, morte, armas, álcool, capítulos inteiros. De coitadinho, passa a egoísta rico, com a namorada socialite, frequentando a alta roda, mas totalmente niilista.

E todo o mistério do começo do livro? Pois é, sem solução. Sem juntar as pontas soltas. Não precisa prestar atenção nos detalhes, porque eles não aparecem novamente na história. A história é sobre o passarinho, como no título. Até aparece um “arco de redenção” onde a devolução da obra traz uma recompensa vantajosa e a devolução do dinheiro pago pelos objetos falsificados. Mas são apenas algumas linhas da história. Quer resenha? Clique Aqui.

Trechos do livro: “…eu era fascinado por estranhos, queria saber o que comiam, em que tipo de prato, que filmes viam e que músicas ouviam, queria olhar debaixo da cama deles, em suas gavetas secretas…”, “…embora soubesse quão sortudo eu era, ainda assim era impossível eu me sentir feliz ou mesmo grato pela minha boa sorte.”, “…estar com ele era saber que a vida era cheia de possibilidades incríveis e ridículas – muito maiores do que qualquer coisa que ensinavam na escola.“, “…assim como a música é o espaço entre as notas…assim como o sol bate entre as gotas de chuva num determinado ângulo e lança um prisma de cores pelo céu – da mesma forma o espaço onde existo…cria algo sublime.”

A capa do livro esconde muito da pintura original e da corrente que prende o pássaro, tão citada na história. Pintura do holandês Carel Fabritius (1622-1654).