Liberado para alunos? =/

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O livro Noite na Taverna do autor nacional Álvares de Azevedo, é uma espécie de livros de contos de terror. Em 86 páginas temos cinco amigos mais o narrador que estão em uma taverna bebendo já algum tempo e resolvem contar histórias de loucuras de amor, do ato de fazer amor literalmente. E essas loucuras incluem amar uma moça e descobrir ser sua irmã (incesto); amar a mulher do seu “salvador” e traí-lo sequestrando a moça; amar a mulher do patrão e fazê-la cometer um crime; amar uma moça que morre e trazê-la de volta à vida (necrofilia).  Nenhuma das histórias termina bem, mas nenhuma delas pode ser verdade, já que todos sobreviveram a essas histórias absurdas, dramáticas e aterrorizantes. “…o sentido geral de todas elas é único: as paixões mais intensas são fatais e levam os amantes a todo e qualquer tipo de transgressão; os que não morrem delas viverão condenados ao remorso eterno…”

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Literatura da época do Romantismo brasileiro, narrativas que idealizavam a mulher amada como objeto de adoração e que misturam amor e morte, esse livro foi publicado em 1855. Vê-se no autor a influência européia na escolha dos nomes dos personagens, nos lugares onde se passam as narrativas e nas citações de poetas e filósofos estrangeiros. Já foram lançadas Hq e várias escolas já postaram trabalho de alunos do Ensino Médio sobre o livro. Minha opinião: muito drama, pouca história. Existem livros mais interessantes desse período pra indicar aos alunos.

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História e Imaginação

Águia, o livro I da série Boudica da autora Manda Scott, conta em 653 páginas a história da famosa guerreira da Britânia, Boudicca que lutou contra Roma na revolta de 60 d.C. A autora em sua Nota no final do livro, conta que usou fontes da história real e misturou com ficção para criar sua história. É o famoso “baseado em fatos reais”, mesmo que ela diga nas notas que o único registro que se tem dessa guerreira durante a revolta, é contado pelo inimigo, no caso, Roma, portanto “com todas as distorções políticas, culturais e sociais que isso implica.”

O primeiro livro conta a história da menina Breaca (lê-se Brayahca) quando aos doze anos mata um guerreiro que entra em sua tenda e vê a morte de sua mãe, perde seu irmão menor levado como escravo, perde seu pai em uma batalha, ama a vidente Airmid, mas depois encontra amor nos braços do guerreiro de outro país Caradoc. Alguns capítulos retornam no tempo para mostrar Bán seu irmão vivendo como cativo do inimigo Amminios, irmão de seu amor. O livro finaliza com o início da batalha entre os romanos, onde seu irmão se tornou guerreiro e os da Britânia, onde Breaca é a lider de cabelos vermelhos.

Problemas: não dá pra entender uma tribo com videntes que lêem até pensamento, não descobrir que Bán não está morto e sim escravizado pelo inimigo. Não dá pra entender como as notícias correm entre as tribos, mas Bán entre os guerreiros de Roma, não desconfia que sua família está liderada pela sua irmã, até ver sua mãe morrer pela espada de um de seu grupo. Não há o encontro entre os dois, mas pra um personagem idealizado como futuro vidente, ele altera entre esperto e distraído todo o tempo. Nesse primeiro livro, os personagens centrais são meio imprecisos, não conseguindo determinar as características fortes de cada um. Por exemplo, Breaca é mostrada como uma guerreira forte e valente escolhida entre os melhores. Mas perde a primeira luta, perde o pai numa segunda luta e foge na terceira batalha. Os videntes: têm visões pela metade, não sabem o que significa, pessoas próximas duvidam de suas visões.

Vale a pena: as descrições das lutas e batalhas, os detalhes sobre os animais (talvez porque a autora é veterinária), a mistura histórica, o crescimento dos personagens.

Outros autores já escreveram histórias sobre Boudicca e a guerra entre Bretanha e Roma:

O Vídeo da Hora: This is America

Várias foram as interpretações e entrevistas sobre o vídeo This is America (Childsh Gambino), com  o ator Donald Glover, com duração de apenas 4 minutos e 4 segundos. É fantástico como mostra a diferença entre a realidade e a ficção da mídia, a forma como a mídia manipula as informações. Todo o contraste entre a mídia mostrando os clips de negros ricos e no fundo os negros sofrendo com racismo, polícia, morte. A arma sendo adorada e os mortos descartados, o celular sendo usado como ferramenta – para os ricos, como “kodak”, para os pobres como conexão.

Uma das melhores análises do clip que pude ver na internet, está em inglês e é da Vicky Hope. 1– A  primeira referência é do músico que se parece fisicamente com o pai de Travyon Martin, assassinado por um branco. E depois Gambino atira na cabeça coberta dele. Porque as pessoas não querem ver. 2– Suas danças são inspiradas em ritmos africanos famosos na web. Quando a câmera aproxima de seu rosto ele imita o personagem Uncle Ruckus, um homem negro que se acha branco e é racista.

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3–   Bem aqui, Gambino se apresenta como o ministro Jim Crow, um personagem inventado por volta de 1900, quando o blackface foi inventado por comediantes brancos.(As leis de Jim Crow foram leis locais e estaduais, promulgadas nos Estados do sul dos Estados Unidos, que institucionalizaram a segregação racial, afetando afro-americanos, asiáticos e outros grupos étnicos. Vigoraram entre 1876 e 1965.) Os Jim Crows eram uma paródia racista dos negros. Nessa imitação no clip ele atira em numa interpretação de um ‘escravo’ -pessoa negra com as mãos amarradas e pés descalços.

4– Após matar um homem, a arma é tratada com grande importância, enquanto o corpo é descartado. 5– A calça que Gambino está usando fazem parte do uniforme oficial dos soldados confederados clássicos, usada na guerra civil. 6– Mesmo depois de matar um homem negro, Gambino dança de forma alegre, sendo seguido por crianças inocentes da escola. Eles estão claramente copiando tudo o que ele faz porque ele é ‘legal’. 7– Enquanto as danças e a diversão acontece, o fundo está um caos. Pra que se preocupar com problemas “dos outros”, quando eles estão se divertindo tanto! 8– A Igreja sempre foi considerada um refúgio seguro para os negros. O coral está cantando e ele entra na vibe do coral, mas muda a fisionomia e atira em todos. Isso se refere ao massacre na Igreja de Charleston em 2015, um outro assassinato em massa de pessoas negras na América. 9– Ele fala do celular como ferramenta e a câmera mostra adolescentes com parte do rosto coberto usando celulares.

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10- Gambino faz um gesto de arma, ouve-se o tiro e todos vão embora, enquanto ele fuma um cigarro de maconha e sobe num carro vermelho e dança como Michael Jackson, enquanto a cantora Sza se apresenta como a estátua da liberdade, ironia à liberdade dos negros.

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11– De repente a tela fica black e surge uns olhos em pânico e Gambino aparece fugindo, correndo e todos os negros estão fugindo. Para onde?

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Prefiro o título original =/

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O Jogo da Vida (A Patchwork Planet) da premiada autora Anne Tyler, com 315 páginas, é um livro sobre a colcha de retalhos que é a vida, numa fase complicada que é a velhice e cita um objeto de um personagem do livro, que passa a história fazendo uma colcha e no final da vida, a herdeira vê que tem um planeta estampado nela. Então por que mudar o título?? Porque a pessoa não leu/entendeu a história. O personagem principal é um rapaz entrando nos 30, divorciado, com uma filha, com pai dono de uma empresa, mas trabalho em serviços gerais em uma outra empresa que presta serviços para idosos. Ele teve muitos problemas durante a adolescência, furtando coisas na vizinhança, e seus pais decidiram colocá-lo num colégio interno. Ele não aprende nada. E só no final ele descobre que todo o problema em se relacionar, não aceitar as regras, vêm da Síndrome de Tourette, por isso é tratado como maluco pela família. Seu irmão e amigos de infância, todos bem-sucedidos, não lhe causam inveja, mas repulsa. Sem perceber, ele gosta dos “velhinhos” para os quais presta serviços. O que me incomodou é essa fase “sem noção” do personagem e o livro sem final. Além de preferir o título original, prefiro as capas americanas que remetem à história. Essa capa da minha edição (Ed. Mandarim; Geiza Caria) foi confeccionada por alguém que não leu a história. =/

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Trechos do livro: “Não conseguia ficar quieta. Sempre havia nela uma insatisfação, um fulgor e uma agitação que me deixavam nervoso.” “E quem se importa se meu emprego não tem futuro?…Preciso pagar meu aluguel e as despesas com supermercado, mais nada.Não estou querendo enriquecer.” “O anjo de todos os outros transmitira uma mensagem e parara por aí. O meu anjo, no entanto, parecia ser mais insistente.” “Quando chega a primavera parece até que está no paraíso…Enquanto eu puder andar por meu jardim toda manhã antes de fazer qualquer outra coisa, para verificar o que brotou durante a noite e o que está prestes a desabrochar, sentirei que tenho alguma coisa pela qual vale a pena permanecer viva.” “E fico desejando ser capaz de reorganizar minha vida, de uma forma que eu nunca mais precise lidar com outro ser humano.” “O tempo pessoal funciona de maneira oposta à do tempo histórico.”

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dia das mães/luto…

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Para sempre … (Carlos Drummond de Andrade)

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
– mistério profundo –
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

 

A Escolha do Título

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A palavra Herança parece ser um amuleto para autores, porque é um dos títulos mais encontrados! Talvez porque mexe com o imaginário do leitor, que espera que alguém do passado tenha deixado algo de valor para ele.

O livro A Herança, primeiro romance da autora americana Louisa May Alcott, lançado em 1997 mas escrito em 1849, conta exatamente essa história clichê onde uma mocinha desamparada, recebe uma herança de um parente e abre mão dela para ser feliz. Tem os amigos ricos que a tratam como igual, mas ela sabe o seu lugar. Tem a invejosa que quer que ela se afaste de todos. Tem os rapazes apaixonados por sua beleza, mas ela não os aceita. E tudo termina perfeito como um bom conto de fadas.

Trecho do livro: ” …por mais pobre e humilde que eu seja, sua riqueza jamais compraria meu amor, tampouco sua estirpe obteria o respeito por alguém que me tornou infeliz com uma paixão mesquinha, incapaz de sentir respeito pela minha situação de desamparo, ou vergonha pelo sofrimento que isto me causou…”

Outras obras de mesmo título:

…sobre o Divórcio…

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O livro Madame Ex, do autor francês Hervé Bavin, escrito em 1975, conta a história dos conflitos conjugais de uma mulher, que não quer perder os filhos, a casa e os direitos assegurados pelo casamento, após descobrir a infidelidade do marido, que se casa com a amante muito mais jovem. O divórcio passa a ser a obsessão dessa ex-mulher: a vingança, o relacionamento difícil com os filhos, a solidão da falta de amigos, tudo conspira contra essa mulher.

Trechos do Livro: “…lá embaixo, parou de conspirar e, girando sobre um calcanhar se descobre com um pequeno riso, inaudível a essa distância, mas tão visível quanto detestável. Agora ele estoura de riso, sim, a mão sobre a boca! Ele zomba de alguém de alguém, e de quem poderia zombar neste momento, pergunto, senão da mulher?” “Como o contrato firmado antes das núpcias, que às vezes não se cumpre, esse pedaço de papel é em suma um contrato de descasamento antes do julgamento.” “Repetindo por exemplo: “Você jamais vai viver de seus borrões!” Avara de suas alegrias, mas não de seus censuras…” “O macho não tem nenhuma chance no amor sem pontualidade, sem paciência, sem dissipação de horas. O buquê é muito banal; a jóia informa sobre o estado de uma carteira, mas não forçosamente sobre o ardor do que há debaixo.” “Já há mais de dez anos ela denunciava os sinais prenunciadores: a irritação fácil, o beijo raro, e às vezes furtivamente enxugado, uma certa maneira de não ver mais, de não entender mais, de não mais tocar, de estar ausente dentro da própria casa, uma desatenção entrecortada de flores, de presentes para se desculpar…”