Um vigia para sua consciência

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O livro Vá, Coloque Um Vigia da autora americana Harpper Lee tem em 251 páginas a continuação da história da personagem Scout do livro anterior da autora, O Sol É Para Todos. Aqui a escrita muda muito, temos apenas a visão da personagens que era muito forte e decidida aos oito anos e se torna mimada e fraca aos 26. Ela retorna à cidade depois de dez anos morando em Nova York e vê seu pai e seu namorado fazendo parte de uma Associação que vê o negro como uma figura inferior e não tem direitos políticos. Ela se revolta, briga com a família, mas no final diz que nunca se casaria com um negro. Ela acha que teve uma vida normal porque seu pai tratava os negros com respeito, mas nunca questionou porque não frequentavam a mesma escola ou a sua casa para brincar. E ao crescer continua não colocando-os como parte do seu círculo social, mas culpa seu pai por não colocá-los no seu círculo político. Não favoritei o primeiro e dei 3 estrelas pros dois.

O jovem influenciável.

O livro Demian do autor alemão e prêmio Nobel em Literatura Herman Hesse conta a história de Sinclair, um jovem que tem a vida perfeita e vê sua vida mudar após uma mentira para se vangloriar. Ele passa a ser chantageado e começa a se afastar de sua família até encontrar o jovem do título, Demian. Ele mostra que não há nada errado entre o bem e mal, o mal e o bom e que todos temos os dois lados, até as religiões. Sinclair se assusta num primeiro momento, mas começa a pensar sobre isso e começa a usar seus desenhos para se comunicar com outros “mundos”. O autor poderia nesse momento ter levado seu personagem à busca da religião perfeita, mas ele faz o contrário: até um menino que tenta se guiar por ele, cita alguns termos místicos e o personagem diz que nunca ouviu falar. E nem demonstra curiosidade pra saber sobre. Tem uns capítulos mais místicos, mas a história sempre volta pra realidade de cada um, com a guerra, explosões, mortes.

Trechos do Livro: “Para com as irmãs dever-se-ia ter os mesmos respeitos e atenções que se dedicava aos pais, e quando brigava…ter sido o culpado, o promotor da discórdia… pois ofendendo às irmãs…ofendia-se ao bem e à autoridade espiritual. ” “Meus pés estavam manchados de uma lama que não se podia limpar no capacho da porta; trazia comigo trevas inteiramente desconhecidas…” “A descoberta de que meu problema era um problema de todos os homens, um problema de toda a vida e de todo o pensamento, pairou sobre mim de súbito como uma sombra divina…” “Tinha medo de ficar só por muito tempo, medo das minhas veleidades de ternura, honestidade e carinho a que me sentia totalmente inclinado…”

Mundo Diferente =/

O livro O Trono do Sol do autorS. L. Farrell é o livro I de uma saga de fantasia que contém mapa e dicionário das palavras diferentes que aparecem na história. Em 574 páginas ficamos conhecendo a jovem Ana que treina com uns religiosos pra descobrir se tem dons. E o responsável e chefe maior dessa religião descobre que Ana tem poder até acima dos mais antigos. Então ele paga a pobre família dela pra ela ir morar numa espécie de templo. Há uma briga de poder entre os que são rígidos com as regras da religião e os que acham que o mundo está mudando. Esses rígidos querem matar pessoas de outras terras que não seguem sua fé e os light, querem uma aproximação com eles. E assim Ana conhece Karl, seu inimigo de fé.

É claro que eles não podem ficar juntos, claro que vão se apaixonar, claro que vão ser perseguidos.

Achei muito parecido com histórias religiosas que ouvia ou lia quando criança. Mas tem um teor adulto, incesto, estupro, adultério e não fecha um ciclo nesse livro. Ainda vou ler o segundo pra ver se vale continuar. Um dos problemas começa na tradução do título, no original “A MAGIC OF TWILIGHT” e o autor agradece a dica de usar crepúsculo em vez de pôr-do-sol. Aí a pessoa traduz como Alvorada. :/

Trechos do Livro: “Uma coisa que você deve entender é que, no mundo que está entrando, confiança, lealdade e amizade são conceitos fluídos e mutáveis.” “A morte não mata crenças, apenas dá mais força a essas crenças…a morte do fundador apenas aumenta seu crescimento. “

Ficção Política

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O livro Lágrimas Na Chuva da autora espanhola Rosa Montero, conta em 358 páginas a história de Bruna, uma replicante de combate. A história se passa no futuro de 2109, num mundo utópico, onde todas as diferenças vivem juntas: humanos, alienígenas, bichos, replicantes, tecno-humanos, andróides. Mas têm um grupo que não gosta dessa mistura e gostaria de separar os humanos. Bruna que também é uma detetive e têm amigos de todas as formas, é contratada para investigar umas memórias adulteradas que estão sendo implantadas nos robôs. Essas memórias piratas tornam os andróides assassinos. Os andróides têm tempo de vida limitado e isso incomoda Bruna, que perdeu seu companheiro para o fim da vida útil das máquinas.

A história tem páginas e páginas explicando o que aconteceu com a terra, as leis que criaram, as guerras. A personagem principal, apesar de ser um andróide de combate, é mimada, sem controle, não aceita opinião dos outros, não quer morrer, mas também não se cuida: drogas, álcool, brigas, têm de tudo um pouco na vida dela. Está sempre atrasada para os compromissos.

Não tem um só personagem cativante! Isso faz a história se arrastar um pouco. Me vi torcendo pra personagem principal virar mártir. 😐

Trechos do Livro: “A existência e a integração dos tecno-humanos criaram um intenso debate ético e social que está longe de ser esclarecido…eles deveriam deixar de ser fabricados.” “Como a gestação desses indivíduos é economicamente muito dispendiosa…todo tecno-humano servirá à empresa que o fabricou…” ” Não digo que não existam conspirações; digo que há muito menos do que se imagina, e que na verdade são amadorismo improvisados, e não perfeitas estruturas maquiavélica.” “…associação que engloba todos os seres que querem ser o que não são: mulheres que querem ser homens, homens que querem ser mulheres, humanos que querem ser reps, reps que querem ser humanos…sempre nos parece que nossa realidade é insuficiente.” “Abandonou o emprego, fundou a Igreja do Único Credo e se dedicou a pregar o Culto Labárico…” “…tatuar uma imagem equivocada resultava numa desordem atroz e atraía uma infinidade de desgraças; aplicar a figura precisa, pelo contrário, acalmava e protegia o indivíduo…” “A tristeza era um verdadeiro luxo emocional…Quando a dor que se sente é tão aguda que se receia não poder suportá-la, não há tristeza, e sim desespero, loucura,fúria. “

Filósofo, Cientista e Monge Excomungado

O livro Profecia da autora S. J. Parris é o segundo da série que pode ser lida separadamente, conta em 319 páginas a história de Bruno, um monge italiano excomungado. Contada em primeira pessoa, em 1583 está acontecendo várias tramas entre Inglaterra e Escócia para ver quem vai ficar com o trono. A França e a Espanha oferecem seus acordos. Mas uma das tramas pode dar errada quando uma das dama de companhia da rainha Elizabeth aparece morta de forma misteriosa. Esse escritor e filósofo é chamado para ajudar a descobrir o assassino. Então ele se infiltra no grupo da rainha Mary. Ele passa por vários problemas até ele mesmo se questionar porquê ele faz tudo errado: acredita em todo mundo, sabe que tá sendo vigiado mas continua fazendo papel duplo, sabe que a mulher do Embaixador está tramando, mas quase se envolve com ela.

Só nas cinquenta páginas finais o complô é descoberto mas nem todos são acusados e presos.

Trechos do livro: “Por um instante, reflito sobre o caminho estabelecido para as jovens nascidas na nobreza: quão brevemente lhes é permitido brilhar, serem exibidas e admiradas em público em seu próprio meio social, só o tempo exato que levam para encontrar um marido adequado.” “Conheci filósofos em Paris. Eram homens tranquilos, de barbas cheias de poeira, que se dedicavam exclusivamente à seus livros. Não entravam pelas janelas de madrugada cobertos de sangue e excremento.”

Gutenberg: a ficção da história real.

O livro O Aprendiz De Gutenberg da autora americana Mestre em Belas Artes Alix Christie, conta em 366 páginas a história do processo de criação dos primeiros tipos e primeira impressora nos anos 1450 na Alemanha. Gutemberg tinha toda a idéia de repetição de textos feitos em placas de zinco ou formas de letras de madeira. Com a injeção de dinheiro por um rico mercador chamado Fust ele vê a chance de ganhar dinheiro com os negócios escusos da igreja e da política. Então Fust decide trazer seu filho adotivo para aprender o negócio da prensa de livros. Peter acha isso tudo uma blasfêmia já que ele estudou a vida toda para ser um escriba. A história tem dois tempos: no presente onde Peter é rico e dono da melhor gráfica e o passado onde tudo começou.

Nada se passa de forma simples, muitas intrigas religiosas, traições aonde envolve dinheiro e no final as idéias do escriba para reproduzir sua própria escrita e salvar os livros dos soldados é emocionante.

A autora fez toda uma pesquisa na Alemanha e em Londres e a capa do livro é uma reprodução das iluminuras do velino de Gutemberg.

Trechos do Livro:” Pela lei, o mestre tornava-se seu pai a partir do momento em que Peter entrou para trabalhar com ele. ..como aprendiz, ele agora pertencia a esse louco, assim como se tivesse nascido filho dele.” ” O negócio de qualquer negócio é descascá-lo: quanto mais limpo e mais simples, melhor…” “…apreciava status. Era a maldição de todos os que nasciam sem privilégio nenhum, mas dotados de cérebro para tentar subir na vida.” ” Como era odioso o poder deles agora, dispostos contra a respiração desses novos homens, o alvoroço da renovação fluindo pela oficina…” ” A carta expedida pelo papa naquele ano era do tipo mais alto: uma indugência plenária garantindo a remissão completa de todos os pecados.”

A mágica e a Montanha

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A edição desse livro é portuguesa, Coleção Dois Mundos de Lisboa, então algumas palavras estão escritas de forma diferente da nossa – nada que atrapalhe a leitura da Montanha Mágica ( no original em alemão Der Zauberberg) de Thomas Mann que conta a passagem do jovem Hans Castorp por um sanatório que fica situado numa montanha nos Alpes Suiços. As 749 páginas contam a passagem de mais ou menos três anos em que o jovem esteve ali internado, primeiro como visitante de seu primo e depois como paciente. Todos os acontecimentos de cada paciente, são contados de forma a criar conhecimento no jovem. Ele que veio a passeio, acaba por se ver doente e também internado como paciente. E acaba por gostar do local, com muitos almoços, muita fartura, muitas festas, muitos passeios. 🏔

A minha impressão é de que o médico responsável pelo sanatório não entendia muito bem do assunto e resolvia internar todo mundo. As pessoas não parecem se importar de chegar saudável e de repente, estar com a mesma doença dos outros pacientes. Na realidade se parece com um resort, onde quem tem muito dinheiro para se “hospedar”, vai ficando. Os “pacientes” comem muito, bebem muito, dançam, assistem jogos de inverno, passeiam pela cidade, fumam charutos, se apaixonam. É como se eles criassem seu próprio mundo ali em cima, na montanha. Até a página 100 se passam apenas dois dias da visita do jovem Hans. Todos o convencem que a doença engrandece a alma. Para o primo do Hans, medir o tempo é uma questão de sensibilidade. Na página 229 se passaram sete semanas. E o jovem decide ficar. Ele começa a se interessar por medicina e lê tudo o que pode para aprender. A partir da página 390 ele está há umano na montanha e muda seu interesse por botânica: plantas, flores e seus chás. 🌲

O livro está cheio de personagens interessantes, como Setembrini, o italiano (pobre) que tem muitas discussões filosóficas com o indiano Naphta (rico), e que faz o jovem Hans aprender muito. Tem a estrangeira Sra Claudia que é casada, mas vai e volta do santório e em sua última vinda, traz um russo a tiracolo que é seu amante. Isso divide Hans que a ama, mas acaba gostando da amizade com o homem. Tem as pessoas que chegam e que partem, os que chegam e que morrem. Após dois anos na montanha ele aprende a skiar.⛷️

Depois da morte de seu primo ele se interessa pelo jogo de cartas, principalmente por “paciencia”. Depois da chegada do gramofone ele se interessa por música clássica. 🎶 Já se passaram três anos e ele abandona a admiração pelo italiano e começa a ficar entediado. Começa a participar de sessões mediúnicas. Eele resolve gastar o resto de suas forças na guerra.
Trechos do Livro: “…Hans Castorp representava um produto genuíno da sua terra: gostava de viver bem, e apesar da sua aparência anémica e refinada, agarrava-se com fervor e firmeza, tal como um lactante deliciado pelos seios da mãe, aos prazeres físicos que a vida lhe oferecia.” “Isso não quer, no entanto, dizer que ele amasse o trabalho; disso não era capaz, por mais que o respeitasse, simplesmente pela razão de não se dar bem com ele.” ” Um dia sem tabaco seria para mim o cúmulo da insipidez, um dia totalmente vazio, sem o mínimo atractivo, e se eu qualquer dia despertasse sabendo que não poderia fumar, acho que não teria coragem nem para me levantar.” “…quando se presta atenção ao tempo, ele passa muito devagar.” “…gostava do seu pequeno gabinete de estudos no inverno, amava-o de todo o coração e fazia questão que o mantivessem a uma temperança de, pelo menos vinte graus…” “A música… como meio supremo de provocar entusiasmo, como força que nos arrasta para frente…Sozinha, a música é perigosa.” ” O sintoma da doença era uma actividade amorosa disfarçada, e toda a doença era metamorfose do amor.”