Ficção Política

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O livro Lágrimas Na Chuva da autora espanhola Rosa Montero, conta em 358 páginas a história de Bruna, uma replicante de combate. A história se passa no futuro de 2109, num mundo utópico, onde todas as diferenças vivem juntas: humanos, alienígenas, bichos, replicantes, tecno-humanos, andróides. Mas têm um grupo que não gosta dessa mistura e gostaria de separar os humanos. Bruna que também é uma detetive e têm amigos de todas as formas, é contratada para investigar umas memórias adulteradas que estão sendo implantadas nos robôs. Essas memórias piratas tornam os andróides assassinos. Os andróides têm tempo de vida limitado e isso incomoda Bruna, que perdeu seu companheiro para o fim da vida útil das máquinas.

A história tem páginas e páginas explicando o que aconteceu com a terra, as leis que criaram, as guerras. A personagem principal, apesar de ser um andróide de combate, é mimada, sem controle, não aceita opinião dos outros, não quer morrer, mas também não se cuida: drogas, álcool, brigas, têm de tudo um pouco na vida dela. Está sempre atrasada para os compromissos.

Não tem um só personagem cativante! Isso faz a história se arrastar um pouco. Me vi torcendo pra personagem principal virar mártir. 😐

Trechos do Livro: “A existência e a integração dos tecno-humanos criaram um intenso debate ético e social que está longe de ser esclarecido…eles deveriam deixar de ser fabricados.” “Como a gestação desses indivíduos é economicamente muito dispendiosa…todo tecno-humano servirá à empresa que o fabricou…” ” Não digo que não existam conspirações; digo que há muito menos do que se imagina, e que na verdade são amadorismo improvisados, e não perfeitas estruturas maquiavélica.” “…associação que engloba todos os seres que querem ser o que não são: mulheres que querem ser homens, homens que querem ser mulheres, humanos que querem ser reps, reps que querem ser humanos…sempre nos parece que nossa realidade é insuficiente.” “Abandonou o emprego, fundou a Igreja do Único Credo e se dedicou a pregar o Culto Labárico…” “…tatuar uma imagem equivocada resultava numa desordem atroz e atraía uma infinidade de desgraças; aplicar a figura precisa, pelo contrário, acalmava e protegia o indivíduo…” “A tristeza era um verdadeiro luxo emocional…Quando a dor que se sente é tão aguda que se receia não poder suportá-la, não há tristeza, e sim desespero, loucura,fúria. “

Filósofo, Cientista e Monge Excomungado

O livro Profecia da autora S. J. Parris é o segundo da série que pode ser lida separadamente, conta em 319 páginas a história de Bruno, um monge italiano excomungado. Contada em primeira pessoa, em 1583 está acontecendo várias tramas entre Inglaterra e Escócia para ver quem vai ficar com o trono. A França e a Espanha oferecem seus acordos. Mas uma das tramas pode dar errada quando uma das dama de companhia da rainha Elizabeth aparece morta de forma misteriosa. Esse escritor e filósofo é chamado para ajudar a descobrir o assassino. Então ele se infiltra no grupo da rainha Mary. Ele passa por vários problemas até ele mesmo se questionar porquê ele faz tudo errado: acredita em todo mundo, sabe que tá sendo vigiado mas continua fazendo papel duplo, sabe que a mulher do Embaixador está tramando, mas quase se envolve com ela.

Só nas cinquenta páginas finais o complô é descoberto mas nem todos são acusados e presos.

Trechos do livro: “Por um instante, reflito sobre o caminho estabelecido para as jovens nascidas na nobreza: quão brevemente lhes é permitido brilhar, serem exibidas e admiradas em público em seu próprio meio social, só o tempo exato que levam para encontrar um marido adequado.” “Conheci filósofos em Paris. Eram homens tranquilos, de barbas cheias de poeira, que se dedicavam exclusivamente à seus livros. Não entravam pelas janelas de madrugada cobertos de sangue e excremento.”

Gutenberg: a ficção da história real.

O livro O Aprendiz De Gutenberg da autora americana Mestre em Belas Artes Alix Christie, conta em 366 páginas a história do processo de criação dos primeiros tipos e primeira impressora nos anos 1450 na Alemanha. Gutemberg tinha toda a idéia de repetição de textos feitos em placas de zinco ou formas de letras de madeira. Com a injeção de dinheiro por um rico mercador chamado Fust ele vê a chance de ganhar dinheiro com os negócios escusos da igreja e da política. Então Fust decide trazer seu filho adotivo para aprender o negócio da prensa de livros. Peter acha isso tudo uma blasfêmia já que ele estudou a vida toda para ser um escriba. A história tem dois tempos: no presente onde Peter é rico e dono da melhor gráfica e o passado onde tudo começou.

Nada se passa de forma simples, muitas intrigas religiosas, traições aonde envolve dinheiro e no final as idéias do escriba para reproduzir sua própria escrita e salvar os livros dos soldados é emocionante.

A autora fez toda uma pesquisa na Alemanha e em Londres e a capa do livro é uma reprodução das iluminuras do velino de Gutemberg.

Trechos do Livro:” Pela lei, o mestre tornava-se seu pai a partir do momento em que Peter entrou para trabalhar com ele. ..como aprendiz, ele agora pertencia a esse louco, assim como se tivesse nascido filho dele.” ” O negócio de qualquer negócio é descascá-lo: quanto mais limpo e mais simples, melhor…” “…apreciava status. Era a maldição de todos os que nasciam sem privilégio nenhum, mas dotados de cérebro para tentar subir na vida.” ” Como era odioso o poder deles agora, dispostos contra a respiração desses novos homens, o alvoroço da renovação fluindo pela oficina…” ” A carta expedida pelo papa naquele ano era do tipo mais alto: uma indugência plenária garantindo a remissão completa de todos os pecados.”

A mágica e a Montanha

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A edição desse livro é portuguesa, Coleção Dois Mundos de Lisboa, então algumas palavras estão escritas de forma diferente da nossa – nada que atrapalhe a leitura da Montanha Mágica ( no original em alemão Der Zauberberg) de Thomas Mann que conta a passagem do jovem Hans Castorp por um sanatório que fica situado numa montanha nos Alpes Suiços. As 749 páginas contam a passagem de mais ou menos três anos em que o jovem esteve ali internado, primeiro como visitante de seu primo e depois como paciente. Todos os acontecimentos de cada paciente, são contados de forma a criar conhecimento no jovem. Ele que veio a passeio, acaba por se ver doente e também internado como paciente. E acaba por gostar do local, com muitos almoços, muita fartura, muitas festas, muitos passeios. 🏔

A minha impressão é de que o médico responsável pelo sanatório não entendia muito bem do assunto e resolvia internar todo mundo. As pessoas não parecem se importar de chegar saudável e de repente, estar com a mesma doença dos outros pacientes. Na realidade se parece com um resort, onde quem tem muito dinheiro para se “hospedar”, vai ficando. Os “pacientes” comem muito, bebem muito, dançam, assistem jogos de inverno, passeiam pela cidade, fumam charutos, se apaixonam. É como se eles criassem seu próprio mundo ali em cima, na montanha. Até a página 100 se passam apenas dois dias da visita do jovem Hans. Todos o convencem que a doença engrandece a alma. Para o primo do Hans, medir o tempo é uma questão de sensibilidade. Na página 229 se passaram sete semanas. E o jovem decide ficar. Ele começa a se interessar por medicina e lê tudo o que pode para aprender. A partir da página 390 ele está há umano na montanha e muda seu interesse por botânica: plantas, flores e seus chás. 🌲

O livro está cheio de personagens interessantes, como Setembrini, o italiano (pobre) que tem muitas discussões filosóficas com o indiano Naphta (rico), e que faz o jovem Hans aprender muito. Tem a estrangeira Sra Claudia que é casada, mas vai e volta do santório e em sua última vinda, traz um russo a tiracolo que é seu amante. Isso divide Hans que a ama, mas acaba gostando da amizade com o homem. Tem as pessoas que chegam e que partem, os que chegam e que morrem. Após dois anos na montanha ele aprende a skiar.⛷️

Depois da morte de seu primo ele se interessa pelo jogo de cartas, principalmente por “paciencia”. Depois da chegada do gramofone ele se interessa por música clássica. 🎶 Já se passaram três anos e ele abandona a admiração pelo italiano e começa a ficar entediado. Começa a participar de sessões mediúnicas. Eele resolve gastar o resto de suas forças na guerra.
Trechos do Livro: “…Hans Castorp representava um produto genuíno da sua terra: gostava de viver bem, e apesar da sua aparência anémica e refinada, agarrava-se com fervor e firmeza, tal como um lactante deliciado pelos seios da mãe, aos prazeres físicos que a vida lhe oferecia.” “Isso não quer, no entanto, dizer que ele amasse o trabalho; disso não era capaz, por mais que o respeitasse, simplesmente pela razão de não se dar bem com ele.” ” Um dia sem tabaco seria para mim o cúmulo da insipidez, um dia totalmente vazio, sem o mínimo atractivo, e se eu qualquer dia despertasse sabendo que não poderia fumar, acho que não teria coragem nem para me levantar.” “…quando se presta atenção ao tempo, ele passa muito devagar.” “…gostava do seu pequeno gabinete de estudos no inverno, amava-o de todo o coração e fazia questão que o mantivessem a uma temperança de, pelo menos vinte graus…” “A música… como meio supremo de provocar entusiasmo, como força que nos arrasta para frente…Sozinha, a música é perigosa.” ” O sintoma da doença era uma actividade amorosa disfarçada, e toda a doença era metamorfose do amor.”

Dois tempos, uma história

O livro O Azul da Virgem da autora americana Tracy Chevalier conta em 350 páginas duas histórias: uma se passa em 1572, período em que aconteceu o massacre de São Bartolomeu, e que cristãos e católicos brigaram pela Reforma. A personagem é católica e ama a virgem, e é chamada de bruxa. A família de seu marido é Calvinista e não a deixa ter um tecido que tem a cor do manto da virgem.

A outra história se passa no tempo atual em que um jovem casal se muda para a França porque ele arrumou um ótimo emprego. Ela começa a se sentir entediada, não conhece ninguém, não gosta do lugar, até que resolve descobrir sobre sua família que morou ali. Se envolve com o bibliotecário e descobre que o pesadelo que têm é sobre o azul da virgem.

As duas histórias acontecem paralelas: as duas são ruivas, tem o mesmo nome, envolvem com um homem, engravidam, ajudam a amiga que está grávida. A primeira história é contada em terceira pessoa e a história atual contada sobre o ponto de vista da personagem principal. Em um ponto ad histórias se tornam uma só.

A capa do livro é maravilhosa, retrato de Paul Cesar Helleu, que mostra uma menina ruiva. O Azul colocado em volta do retrato pelo Raul Fernandes -que faz ótimas capas- não remete ao azul real, que era a cor do manto da virgem.

Trechos do livro : ” Os homens foram saindo de perto da lareira até ouvirem os primeiros gritos de Marie: eram homens fortes, acostumados com o guincho dos porcos sendo sacrificados, mas o tom humano fez com que andassem depressa. ” “Foi exatamente nesse ponto que aconteceu: como aquelas criaturas unicelulares que de repente se dividem em duas sob o microscópio, sem qualquer motivo aparente, senti que estávamos nos separando em seres distintos com perspectivas diversas.”

Para um público mais young adult

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Uma das graphic novels mais premiadas dos últimos tempos o livro Retalhos é sobre um garoto que vive no meio-oeste americano, numa família super religiosa e se vê questionando algumas idéias sobre religião e pessoas. O autor  Craig Thompson conta que essa é uma história autobiográfica, mas vemos um “texto-visual” muito pesado: bullying, abuso infantil, drogas, roubo. Não acho que essa HQ seja direcionada para o público infantil. O texto fala muito sobre a Bíblia e versículos, mas também fala do primeiro amor e das descobertas da adolescência.

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Um Romance Histórico muito Bom!

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A Longa História do autor nacional Reinaldo Santos Neves é uma história medieval e não conta apenas uma, mas dezenas de pequenas histórias. Em 607 páginas conhecemos Grim, um noviço que nunca saiu do mosteiro de Dru, que recebe generosas ofertas da Condessa, uma senhora muito idosa que gosta de ouvir histórias.  Descobre que a unica historia que não conhece é a do monge Posthumos que fez voto de silêncio e mora num mosteiro do outro lado do continente. Para conhecer a longa história,  ela pede que o Abade envie copistas para trazer-lhe a história.  Uma confraria  é formada e um desses copistas é Grim nosso personagem principal, que reclama não querer sair do mosteiro. Durante essa jornada ficamos conhecendo seus  companheiros de viagem, as histórias que cada um conta, as histórias das cidades aonde passam, os perigos, os amores e finalmente conhecemos a longa história já no final do livro. O autor transforma sua história na própria história a ser contada, e que toda história é formada de pequenas histórias.  Brilhante. Nada é clichê,  há muitas surpresas, mesmo quando acontece algo comum, como um noviço se apaixonar,  o desfecho não é o esperado. Tem muito humor, violência,  religiosidade e linguística.

Trechos do livro: “Uma história é como um navio. Nele embarca o autor…embarcam os personagens como passageiros. …embarcam ouvintes como tripulantes. ..Cada capítulo é um porto em que a história faz escala…” “…arrebata o espirito de quem a ouve…” “…o rei enviou-o para fora do país numa missão estranha…que fosse até o país que ninguém sabia onde ficava e trouxesse de lá a coisa que ninguém sabia o que era.” “…porque as vítimas da heresia são os rústico e os ingênuo s que carecem de inteligência para compreender as falácias dos hereges.” “Porque são todos vícios e não virtude s, e por isso fazer uso deles é como pecar contra a doutrina da boa retórica. Para que entendas o dano de que são capazes, deixa-me apresentar algum deles. Pleonasmo, por exemplo,  é o acréscimo de palavras desnecessária ….” “…declarando que tudo que queria na vida era uma pequena casa com jardim em pleno campo, um moço para cuidar dele e trazer-lhe pena e pergaminho,  e amigos com quem compartilhar seus livros e seu vinho.” “…aquelas facilidades e regalias tinham sido compradas com o corpo de Lollia…o corpo dela provera-os de alimento, de vinho,  de teto, de vestimenta. ..”