Receitas…sem sabor :/

O livro A Parte Mais Tenra da autora, que é especialista em gastronomia, Ruth Reichl, conta em 304 páginas a história de uma menina americana que tem vergonha da comida da mãe, fica na cozinha junto com a tia-avó vendoa-a cozinhar maravilhosamente bem, vive numa família desestruturada, tem um irmão por parte de pai. Adolescente ela vai aprender francês no Canadá, aprende sobre a cozinha francesa ao frequentar a casa do ministro francês. Faz Artes e Mestrado em Artes e se casa com um artista. Viaja pra Europa e conhece a cozinha italiana ao se hospedar numa Villa. Ao voltar começa a trabalhar de garçonete. Depois começa a escrever sobre restaurantes e seus pratos.

Acho que a história pode ser semi-biográfica, até o nome da personagem é o mesmo. Me decepcionou o livro não cumprir a premissa ou os “blurbs” da contra-capa. Esperava algo no estilo “cozinhar salvou minha vida”, mas apesar de todos os gatilhos, a personagem nunca tentou ser uma “chef de cuisine“.

Trechos do Livro: “…ela foi a primeira pessoa que jamais conheci que entendia o poder da culinária… mas cozinhava mais para si própria do que para os outros.” “Vendo a… preparar uma gougère na cozinha, perguntei-me o que a imaginação tinha a ver com aquilo. Parecia-me que cozinhar era sobretudo uma questão de organização.”

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Primeiras Histórias

O livro Bom Dia, Tristeza da autora francesa Françoise Sagan é o seu primeiro livro escrito aos 18 anos. Já foi dito que é meio que autobiográfico. A história, que virou filme em 1957 com David Niven e Deborah Kerr, conta em 127 páginas as férias do verão de 53 da adolescente Cécile e seu pai viúvo bon vivant. Ela é uma adolescente mimada pelo seu pai que deixa ela beber, fumar, leva para os bares noturnos onde passam as noites. Ele arranja namoradas muito mais jovens pra se sentir garotão. E tudo muda quando uma amiga de sua mãe aparece pra passar uns dias com eles. Cécile tem medo de errar perto dela que é muito elegante, fina e aristocrática. Tudo diferente dos amigos hippies e modelos sem cérebro que fazem os amigos de seu pai. Ambígua, Cécile não decide se gosta mais de um ou outro tipo de vida. Fútil e frívola, arranja um namorado, trama com ele, ajudá-la a acabar o romance de seu pai com a Dama, depois que os dois confirmam casamento. E tudo acaba em tragédia.

Contado pela Cécile, temos a visão distorcida de todos os fatos. Nem a própria sabe o que não quer, mas o que ela quer é continuar irresponsável.

Trechos do Livro: “Aliás, não tínhamos as mesmas relações: ela frequentava pessoas finas, inteligentes, discretas, e nós, pessoas barulhentas, irrequietas, das quais meu pai exigia simplesmente que fossem belas ou engraçadas.” “Certas frases criam para mim um clima intelectual, sutil que me subjuga, mesmo se não as penetro em absoluto.” ” Pensei que tinha razão, que eu vivia como um animal, ao bel-prazer dos outros, que era pobre e fraca.” “A liberdade de pensar e de pensar mal e de pensar pouco, a liberdade de escolher minha própria vida…eu não era mais que uma pasta moldável…”

Romance de formação?

O livro Não foi nada do autor chileno Antonio Skármeta conta em 106 páginas a história de uma família que foge da ditadura do Chile e vai morar na Alemanha, depois do golpe militar de 1973. Apesar de ser indicado como um Bindulgsroman, ou romance de formação, a história mostra um período muito curto da vida do adolescente e parece com um desses diários com chave. Ele é chamado pelo apelido de “eswarnicht” que dá título ao livro, frequenta escola com o irmão, se apaixona pelas meninas alemãs, fala sobre seu país na escola, frequenta os clubes de militância política com o pai, briga e faz amizades.

Já que para ser considerado romance de formação, a história deve contar o trajeto entre “infância à maturidade, em busca de crescimento espiritual, político, social, psicológico, físico ou moral“, esse episódio curto da vida de um adolescente está na indicação errada.

Trechos do Livro: “Para variar, papai me disse que ia me dar um tabefe por ficar perguntando besteiras. Como devem ter percebido, meu paizinho colabora com entusiasmo e carinho na educação dos filhos. ” “É que estou contando tudo misturado e aos pulos. Mas houve um tempo em que eu era a criança mais triste de Berlim.”

Uma piada séria =D

O livro Como Woody Allen pode mudar sua Vida do autor Eric Vartzbed deveria ser um livro de auto ajuda, já que o autor é doutor em psicologia. Mas em 103 páginas temos a biografia cinematográfica do gênio ensinando engraçadas lições de vida. Ele cita as mais famosas obras do Allen e de outros escritores e diretores de cinema, para “analisar” os relacionamentos, a religião, o dinheiro, a vida. É um livro divertido, recheado de informações e quando termina, dá vontade de ir correndo ver ou rever alguns filmes do Woody.

Trechos do Livro: “Embora casada, cercada de alunos e admiradores, ela se assemelha aos verdadeiros solitários, aqueles que, em meio a uma animada multidão, arrastam consigo o próprio deserto.” “”Quanto mais conhecimento, mais sofrimento”, suspirava o Eclesiastes…” “O humor… revela nossa ambiguidade moral…é o entusiasmo pela relatividade das coisas humanas, o estranho prazer derivado da certeza de que não há certezas.” “Woody Allen dá a impressão de pertencer sobretudo ao PC, “Partido Cético”. Pessimista desencantado, ele milita a favor da dúvida e se engaja no desengajamento.”

Fábula Israelense

O livro De repente, nas Profundezas do Bosque do famoso autor israelense Amós Oz, conta em 139 páginas a história de uma cidade sem animais. Não tem canto dos pássaros, latido de cachorros, não tem leite de vaca pra beber, nem ovos de galinhas pra comer. Todos vivem de vegetais e legumes. Não tem peixes no rio. As crianças só conhecem os animais através dos livros de história. Existe uma lenda por trás do sumiço dos animais: um feiticeiro que vive no bosque roubou todos eles. Duas criança resolvem entrar na floresta pra descobrir a verdade.

O livro tem um ritmo de suspense, mas sem descobertas fabulosas no final. A finalização do motivo da cidade não tocar no assunto do sumiço dos animais, deixa a desejar, mas é uma fábula e tudo pode acontecer na história. É uma história sobre bullying e a não-superação dele.

Trechos do Livro: “Almon discutia com o espantalho, às vezes longamente e com raiva…e tentava…convencê-lo, ou pelo menos fazê-lo alterar um pouco as suas opiniões inflexíveis.” “Talvez aqui entre nós exista de verdade uma antiga loucura…pois quem não sabe não pode ser considerado culpado. E também não se contamina.” “…vocês dois poderão tirar a roupa e entrar…Aqui entre nós não há nenhuma vergonha em ficar sem roupa…”

Ficção Política

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O livro Lágrimas Na Chuva da autora espanhola Rosa Montero, conta em 358 páginas a história de Bruna, uma replicante de combate. A história se passa no futuro de 2109, num mundo utópico, onde todas as diferenças vivem juntas: humanos, alienígenas, bichos, replicantes, tecno-humanos, andróides. Mas têm um grupo que não gosta dessa mistura e gostaria de separar os humanos. Bruna que também é uma detetive e têm amigos de todas as formas, é contratada para investigar umas memórias adulteradas que estão sendo implantadas nos robôs. Essas memórias piratas tornam os andróides assassinos. Os andróides têm tempo de vida limitado e isso incomoda Bruna, que perdeu seu companheiro para o fim da vida útil das máquinas.

A história tem páginas e páginas explicando o que aconteceu com a terra, as leis que criaram, as guerras. A personagem principal, apesar de ser um andróide de combate, é mimada, sem controle, não aceita opinião dos outros, não quer morrer, mas também não se cuida: drogas, álcool, brigas, têm de tudo um pouco na vida dela. Está sempre atrasada para os compromissos.

Não tem um só personagem cativante! Isso faz a história se arrastar um pouco. Me vi torcendo pra personagem principal virar mártir. 😐

Trechos do Livro: “A existência e a integração dos tecno-humanos criaram um intenso debate ético e social que está longe de ser esclarecido…eles deveriam deixar de ser fabricados.” “Como a gestação desses indivíduos é economicamente muito dispendiosa…todo tecno-humano servirá à empresa que o fabricou…” ” Não digo que não existam conspirações; digo que há muito menos do que se imagina, e que na verdade são amadorismo improvisados, e não perfeitas estruturas maquiavélica.” “…associação que engloba todos os seres que querem ser o que não são: mulheres que querem ser homens, homens que querem ser mulheres, humanos que querem ser reps, reps que querem ser humanos…sempre nos parece que nossa realidade é insuficiente.” “Abandonou o emprego, fundou a Igreja do Único Credo e se dedicou a pregar o Culto Labárico…” “…tatuar uma imagem equivocada resultava numa desordem atroz e atraía uma infinidade de desgraças; aplicar a figura precisa, pelo contrário, acalmava e protegia o indivíduo…” “A tristeza era um verdadeiro luxo emocional…Quando a dor que se sente é tão aguda que se receia não poder suportá-la, não há tristeza, e sim desespero, loucura,fúria. “

Sobre livros e escrita

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O livro A Décima Terceira História da autora inglesa Diane Setterfield, conta em 431 páginas a história de Margaret, que vive e trabalha na livraria do pai. Ela escreveu um ensaio sobre a vida de irmãos gêmeos que figurava entre boas edições acadêmicas, ficando conhecida por escrever biografias póstumas. Ela e o pai são muito amigos, mas a mãe entrou em depressão após o nascimento das filhas gêmeas. Só Margaret sobreviveu.

Então ela recebe uma carta de uma grande escritora, que está muito idosa e quer que ela seja sua biógrafa. Seu pai a convence de ir morar na mansão da autora, em uma pequena cidade do interior. Ela não se dá bem com a pessoa no começo, mas depois resolve ficar e escrever: desde que possa checar todas as informações que ela passar.

O livro segue com alguns clichês: ela só aceita porquê a autora também é gêmea. Ela é cercada de mistérios, que na verdade não existem. Ela não só faz pesquisa, como se torna uma “detetive” pra ajudar um senhor que a assustou, quando visitou as ruínas da mansão. Ela recrimina o jeito arrogante da autora, mas não fala com a própria mãe.

O final fecha direitinho o círculo de suspense, mas me pareceu que ela criou um outro personagem pra ajudar na finalização e causar algumas surpresas no leitor.

Trechos do Livro:”…ler é, de certa forma, cuidar…eu gosto dos meus livros mesmo que, muitas vezes, eles sejam tão desinteressantes por dentro quanto o são por fora.” “Desde a sua chegada, ela parece estar um pouco melhor. Diz que são as propriedades anestésicas de contar histórias.”