Manipulação do Narrador?

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O livro O Torreão (The Keep) da autora americana Jennifer Egan conta em 238 páginas a história de Danny um rapaz que faz uma brincadeira de mau-gosto com seu primo quando crianças e agora que está adulto e ferrado – seu primo está rico – recebe uma oferta de emprego dele. Mas esse emprego é do outro lado do mundo num castelo em ruínas.  Danny esteve preso, se envolveu com gente errada e agora que chegou ao castelo, começa a ter visões, ouvir vozes e pensa que seu primo quer se vingar. O lugar não tem tecnologia, fica longe das cidades, sem internet, sem telefone. Essa história é contada em primeira pessoa, mas os capítulos intercalados, ouvimos a voz do narrador em terceira pessoa contando a história de Ray que está preso e que escreve a história de Danny no curso de escrita da prisão.

A autora consegue manipular a linha do tempo dos personagens, conta histórias intermediárias, sobre a pessoa que mora no torreão, sobre a morte na piscina, sobre a fuga da prisão, sobre outros personagens. ficamos à merce de sua escrita para que ela conecte todos, mas ela vai eliminando as dicas e preservando a loucura/sanidade dos personagens para que o leitor decida: o que você viu?

Problema com o livro: a tradução: “Acabou indo parar na cidade bacana, em vez de na cidade xexelenta…”

Trechos do livro: “O verdadeiro alto agia de duas maneiras: você via, mas também podia ser visto, você conhecia e era conhecido.” “Os amigos de Danny eram todos jovens – eles ficavam jovens, porque no momento em que se casavam e começavam a ter filhos, as amizades morriam e eram substituídas por outras novas…ele precisava ser jovem…” “…vivia mais ou menos num estado constante de expectativas de alguma coisa, a qualquer dia, a qualquer hora, uma coisa capaz de mudar tudo…”

Existe um outro livro de mesmo nome, do autor F. Paul Wilson que deu origem a um jogo famoso na América:

Era pra ser Surpreendente? :/

O livro O Portador da autora britânica de livros de suspense Sophie Hanna, conta em 443 páginas a história de uma mulher casada, rica, que sofre um derrame cerebral e vai ficar confinada a uma cama vegetando. Ela vive numa casa antiga com um casal de amigos do seu marido e também sócios de uma empreendedora que deu certo e ganhou milhões com sua empresa. A chamada de capa já conta um pouco do livro. Um assassino decide tirar a vida da mulher – porque a odeia e quer que ela morra ou porque a ama e não quer vê-la sofrer? – e toda a história se desenrola em torno da motivação para o crime.

SPOILER! O marido se entrega à policia dizendo ser o assassino, mas não quer dizer o motivo. A sócia que estava apaixonada por ele vai à policia e diz que ele está mentindo. Todos os moradores da casa reforçam que foi o marido. E a polícia, que já tinha o assassino confesso e preso, resolve investigar a motivação.

Problemas com a história pra mim: a personagem principal é mostrada como uma mulher com inteligência muito acima da média, ganhou dinheiro, trabalha viajando, mas – clichê dos clichês – é casada com hétero-boy-lixo e se apaixona platonicamente pelo marido de outra apaixonado por poesia. Um cara que não faz o mínimo esforço pra ficar de vez com ela. Nos primeiros capítulos ela realmente precisava se envolver com a personagem “cuidadora da enferma”, pra dar continuação na história, mas a forma como isso acontece é inverossímel!! Em que lugar no mundo que uma empresária de sucesso decide virar babá de uma jovem anoréxica, mimada, tatuada, com a boca suja e desconhecida? E muda sua decisão de ficar em um hotel de luxo pra ficar em uma pensão de beira de estrada toda suja, só pra cuidar da jovem? Ela não demonstra bom senso em nenhuma situação, tirando toda a carga de “inteligente’ que o texto mostra no começo.

O motivo pelo qual o marido foi preso é outra inverossimilhança! Toda a situação da história é tão surreal que poderia ter colocado o marido internado em um hospício, que era o que eu achava que iria acontecer. Quando o policial diz que nenhum dos personagens matou a enferma, me deu vontade de jogar o livro longe!! E já estava no final!!

Pode funcionar quando a editora colocar o livro como um drama familiar e não suspense.

Trechos do Livro: “…mas se é algo pessoal e importante me esforço ao máximo para adiar por tempo indeterminado. Pode ser por isso que não choro em aeroportos quando meus vôos não partem no horário; atraso é meu ritmo natural.” “Você não acha estranho que a expressão ‘filho da puta’ seja tão conhecida, mas ninguém nunca chame alguém de ‘filha de um escroto’?” “…esse capacho que sacrificaria tudo pelo que trabalhou para viver na prisão com um homem que a rejeitou? Eu absolutamente não me reconheço.” “A vida pune os carentes: admita que você não pode viver sem algo, e isso lhe é tomado.” “Talvez meu próximo projeto profissional devesse ser inventar meu homem ideal. Eu me asseguraria de que todas as últimas falhas de projeto fossem eliminadas…”

 

Um detetive diferente =)

O livro O Valete de Espadas do autor russo Boris Akunin (pseudônimo de Grigori ChKhartishvili), faz parte de uma série de livros de detetives escrita pelo autor, mas que podem ser lidos separadamente. Esta minha edição, que é uma tradução da versão francesa, conta em 187 páginas um dos casos do detetive Erast Fandórin e se passa em Moscou no final do Séc XIX, em que um vigarista que deixa uma carta do baralho após saquear suas vítimas, e o agente Erast é encarregado do caso porque o Valete está expondo alguns figurões ao ridículo.

Spoiler! Na verdade não achei o Erast um detetive, já que ele não investiga muita coisa. Além de ser uma das vítimas do Valete. O vigarista também é amador, faz alguns truques como uma criança que acredita em mágicas e acha que ninguém vai descobrir. Não há nada surpreendente, nem reviravoltas: uma história linear, com alguns “deixa pra lá”, como o caso da Condessa que ninguém sabe o que acontece. E ele desiste de “pegar” o vigarista! Não considero o tipo de história policial que me faz querer conhecer outros livros da série.

Trechos do Livro: “Todo mortal, como cada um de nós sabe, joga cartas com o destino. A mão não depende do indivíduo; nesse aspecto é a sorte que decide: um receberá apenas ases, o outro, apenas dois e três.” “Nove entre dez pessoas estão dispostas a lhe contar tudo espontaneamente…o que surpreende é que ninguém ouve  realmente ninguém…as pessoas esperam uma pausa na conversa e, tão logo aconteça, voltam a falar do que lhes interessa…”

Há outros livros com o mesmo título de outros autores:

A Desconstrução do Título

O livro A Mulher do Tenente Francês do autor americano John Fowles, conta em 444 páginas a história do biólogo Charles que está prometido a uma moça rica e bonita da Inglaterra no ano de 1867 e fica curioso com o caso de uma moça que foi abandonada pelo tenente do título do livro, que fica à beira-mar à sua espera. Sarah, parece um pouco depressiva, com uns problemas de subserviência com as pessoas à sua volta. Trabalha de governanta, cuidando da educação de crianças.

Spoiler!  O personagem principal é o Charles. O nosso narrador não-confiável, anda atrás dele por todas as páginas. Não sabemos o que se passa com outros personagens, apenas quando Charles está presente. A Sarah é uma mulher forte e determinada, sabe o que quer, quando ela consegue, ela deixa toda a vida de criada pra trás e vai viver em meio a artistas. E ser livre. O livro tem dois finais: um imaginado pelo Charles e outro oferecido pelo Narrador, que passa a ser um quase-personagem. O tenente do título nunca aparece; é apenas citado, mas que depois dá pra notar que ele foi “inventado” pela Sarah.

É claro que o título é pra fazer o leitor acreditar nas palavras do narrador, mas no final, o próprio narrador desconstrói todo o suspense. Essa história é sobre a perda: perda da riqueza porque seu tio casou-se; perda da liberdade porque vai se casar; perda do status; perda da pureza porque amou; perda da dignidade, por correr atrás de quem não o quer.

Trechos do Livro: “Os únicos momentos de felicidade que tenho é quando estou dormindo. Quando acordo, o pesadelo recomeça. Sinto-me abandonada numa ilha deserta, aprisionada, condenada por um crime que ignoro qual seja.”

O filme de mesmo título foi lançado em 1981 com os famosos Meryl Streep e Jeremy Irons,  é um drama que mostra duas histórias, uma das telas e uma da vida real.

“Arrumação demais mata o livro”*

O livro de não-ficção Para Ler Romances como um Especialista do autor e professor Thomas C. Foster mostra em 286 páginas como são as aulas de interpretação de textos de clássicos e contemporâneo, e a forma de ler como uma nova experiência. É um livro pra quem já lê ficção há bastante tempo, pra não se sentir perdido nas citações que ele faz de várias obras. Li muitas das obras citadas ou algum outro texto do autor citado e isso ajuda muito a entender o esquema acadêmico do livro. O autor defende é o papel da leitura ativa e criativa. Mas precisa ter uma boa bagagem cultural, não só de livros, mas de filmes e de jornais e revistas. E livros sobre todos assuntos, não só romance/ficção. É uma descrição acadêmica, como se um estudante de letras estivesse em sala de aula.

*o título foi retirado da página 250, linha 2.

Trechos do livro: “Seu interesse não está em recriar verdadeiramente a Dublin mas em criar uma Dublin que seus personagens possam habitar. O que ele faz é enganar o olho…” “Embora seja feia, chocante e repulsiva, isto é, em uma análise, mera obsessão. A coisa na qual ele é viciado, a coisa que tira Nabokov do sério, é a linguagem…parece pensar que sua bela narrativa justifica sua conduta hedionda, que belas palavras tornam elegante uma moral de esterco.” “Um romance sem leitores ainda é um romance. Tem um significado, já que teve pelo menos um leitor, a pessoa que o escreveu. Sua gama se significados, no entanto, é bastante limitada. Adicione leitores, adicione significados.” “…de onde eles tiram suas idéias? De todo lugar. E de um lugar em particular. Os romances vêm de um grande número de fontes, a mais importante das quais é sempre a experiência pessoal.”

Uma história policial

O livro A Deusa Cega da autora norueguesa Anne Holt, conta em 200 páginas a história de um grupo de pessoas da lei que querem acabar com uma quadrilha de traficantes. O primeiro capítulo mostra um rapaz ensanguentado se entregando à polícia e conta que o homem encontrado morto foi ele que matou. E aí vamos até o final do livro sem nenhuma surpresa. Me pareceu assistir um seriado policial americano; só que o livro contando apenas um episódio e precisaria assistir até o final da série. Pode ser que esse não seja o melhor livro da autora, mas não favoritei, não pretendo ler outro. Alguns capítulos mostram duas pessoas conversando, mas não as identificam, tentando criar um suspense, mas não funcionou pra mim. O narrador onisciente diz uma coisa (o papel era tão pequeno e leve que demorou uma eternidade pra chegar ao chão) e o personagem diz outra (o papel tinha um tamanho de um cartão-postal dobrado duas vezes). O narrador conta sobre o personagem (ele pegou com a mão trêmula, como um mau ator) e o personagem desmente (ela sabia que o tremor era autêntico).

Trecho do Livro: “A deusa da justiça continuava sobre a mesa, na mesma posição, com as balanças erguidas e a espada ameacadora.”

Uma saga da Era Vitoriana

O Livro das Crianças não é um livro infantil. Escrito em 2009 pela autora inglesa A.S. Byatt, o livro de 671 páginas conta a história de Olive, uma senhora casada e com vários filhos em 1895. Uma novidade é que ela bancava a família com seu ofício de escritora de histórias infantis. Cercada pelo mundo das artes e cultura, todos à sua volta são modernos. Ela escreve um livro pra cada filho. Ela pensa que cada um criou sua própria fantasia. A família tem vários segredos e sussurros. Uma trupe de atores alemães passa um tempo na propriedade e encenam uma peça que deixam todos meio que anestesiados. Todos acham que o alemão que cria as marionetes tem poderes místicos.

Uma turbulenta saga familiar que começa na Era Vitoriana e termina na guerra. A autora passa todas as informações políticas de cada período. Os personagens representam as classes familiares da Inglaterra do Séc. XIX. Tem o grupo das artes, atores, ceramistas, pintores, bordadeiras. Tem o grupo das feministas com mães solteiras que se apoiam, médicas. E tem as histórias que Olive escreve, histórias dentro da história.

As meninas Fludd me lembram “as virgens suicidas”. O narrador é onisciente mas deixa dúvidas quanto ao sentimento dos personagens. Nas duas últimas partes do livro me pareceu que a autora quis incluir toda sua pesquisa e a história fictícia se mistura com os relatos históricos, transformando em um livro acadêmico. O livro tem muitas notas de rodapé com informações da tradutora Elisa Nazarian.

A autora é premiada. Esse livro foi indicado para o Book Prize 2009.

Trechos do Livro: “…tendo sido educada na atmosfera fabiana de uma justiça social racional, foi forçada a admitir que não tina ‘direito’ de se sentir infeliz, uma vez que era excessivamente privilegiada. ” “Sua mãe era uma boa e temente luterana que despendia tempo e dinheiro visitando hospitais para os pobres, organizando bazares e juntando roupas. Mas ela comia em porcelana Meissen, com colheres de prata. Havia inconsistências terríveis.” “Sentiu prazer também na inerte solidez das vidraças e da mobília polida, na fileira de livros arrumados à sua volta…”