Descobrindo novos autores =)

zambra

Mas há momentos em que não podemos, não sabemos nos perder. Ainda que tomemos sempre as direções erradas. Ainda que percamos todos os pontos de referência…E talvez tenhamos saudade do tempo em que podíamos nos perder.”
O livro Formas de Voltar pra Casa do autor chileno Alejandro Zambra, conta em 157 páginas a historia de relembranças, dos tempos de criança num bairro longe da ditadura que acontecia nas grandes cidades. O personagem principal é um escritor, que não sabemos se já estabelecido ou não, está às voltas de escrever um livro e incluir sua ex-mulher e seus pais. Mas ele não se lembra bem da história deles. Então ele começa a se lembrar da menina de quem gostou na infância, das ruas que ele percorria para encontrá-la. E transforma tudo isso em uma outra história.
Trechos do livro: “…mas naquela tarde  achei que tinham se perdido. Que eu sabia voltar pra casa e eles não.” “As ruas de Maipú não eram, então, perigosas? De noite sim, e de dia também, mas, com arrogância ou com inocência… os adultos brincavam de ignorar o perigo: brincavam de pensar que o descontentamento era coisa de pobres, e o poder, assunto dos ricos…” “Por um segundo pensei que ela mentia, apesar de nunca ter mentido sobre essas coisas…Nosso problema foi justamente esse…fracassamos pelo desejo de ser honestos sempre.” “Ou então é que eu gosto de estar no livro. É que eu prefiro escrever a já ter escrito. Prefiro permanecer, habitar esse tempo…” “Vivíamos com poucas palavras e era possível responder a todas as perguntas dizendo: não sei.”

 

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Bonito, mas triste.

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O livro Como eu era antes de Você da autora londrina Jojo Moyes, conta em 286 páginas o drama de Louisa, uma jovem que parou de estudar para trabalhar e ajudar a família. Em seus “bicos” ela vai trabalhar em uma mansão como cuidadora de um jovem cadeirante, mimado e depressivo. Ao descobrir que o jovem quer a “eutanásia”, ela se descobre apaixonada por ele e tenta de todas as formas fazê-lo mudar de idéia.
Me lembra um filme com a Julia Roberts, que ela faz esse papel de cuidar de um paciente terminal.
A autora tenta colocar um pouco de frases divertidas, mas é um livro-clichê em que o leitor já vai descobrindo o que acontece. É interessante a forma como a autora envolve o leitor, fazendo a gente gostar até do personagem mais chatinho. Não há um aprofundamento dos personagens ou da narrativa, em alguns capítulos ela muda o ponto de vista para os personagens secundários, mas não tem um arco de grandes acontecimentos.
Trechos do Livro: “O desemprego era um conceito, algo vagamente citado nos noticiários…nunca pensei que se pudesse sentir falta de um emprego como se sente de um braço ou de uma perna…fizesse a pessoa se sentir inadequada, inútil.” “Parecia um puro-sangue. Eu já tinha visto mulheres como aquela…o tipo de mulher que me faz duvidar de que todos os humanos pertençam a mesma espécie.” “Segurei-me para não dizer que qualquer um consegue fazer com que as coisas fiquem bonitas se possuem uma carteira tão recheada quanto uma mina de diamantes.” “Falei com certa autoridade sabendo que meus pais me consideravam uma especialista em toda sorte de coisas que nenhum de nós realmente tínhamos a menor ideia.”
Trailer do filme baseado neste livro:

Bibliocleptomania =D

leitura

O livro Uma História da Leitura do autor argentino naturalizado canadense Alberto Manguel, com 386 páginas nos conta de um jeito “histórias da hora de dormir” sobre sua vida de leitor, seu apego aos livros quando criança; diz que não gosta de ler contracapa para saber a história (27); como eu, conta que também achou o suspense da dama e o cachorrinho, do Tchecov muito ralo (27); conta que já roubou livro mais de uma vez (29); já trabalhou como “leitor” para Borges e aprendeu com ele; ele cita trechos ruins de autores famosos (32); contou que Borges tirava suas idéias de outros livros que lia; ele diz  que não consegue encontrar a forma definitiva de arrumar seus livros(34) na estante.

Esse livro não é só a história da leitura: é a história de vários tipos de leitores, de vários tipos de livros, do autor de livros, do tradutor, das leituras proibidas, da história oral, sobre a história do óculos, acessório divino para os amantes da leitura.

Trechos do Livro: “O Astrônomo lendo um mapa de estrelas…o arquiteto lendo a (planta)…a qual será erguida uma casa…o zoólogo lendo os rastros de animais nas florestas; o jogador lendo os gestos…a dançarina lendo as notações do coreógrafo…o tecelão lendo o desenho de um tapete…o organista lendo várias linhas musicais…o agricultor lendo o tempo no céu…” “…parece que encontramos, livro após livro, os traços de nossas vidas.” “…nas raras ocasiões em que encontrava outras crianças, achava suas brincadeiras e conversas menos interessantes do que as aventuras e diálogos que lia em meus livros.” “…donos do poder…classificam os livros como luxos supérfluos;  os regimes totalitários exigem que não pensemos…”

A Simplicidade Através de Palavras Escritas

A minha edição de Casa sem Dono do autor alemão Henrich Böll é essa com as fotos e a carabina, devidamente citadas no texto. Aliás, essa foto é um personagem que está em toda a história contada de forma simples e “sentenças curtas”, como gostava o autor, Prêmio Nobel de Literatura. Em 314 páginas conhecemos essa casa na Alemanha pós guerra em que moram duas senhoras, uma moça com um filho e um senhor. Também aparecem os personagens vizinhos que convivem nessa casa. A avó, dona da casa, é dona de uma fábrica de conservas que sobreviveu à guerra porque “todo mundo quer estocar alimentos na adversidade”. A moça casou com seu filho, que morreu na guerra e a deixou grávida. Ela não consegue pensar em se casar com ninguém, mas sai com vários. Seu filho conhece cada namorado da mãe e os chama de “tio”. Albert, estava na guerra, era amigo do herdeiro dessa casa e veio morar aqui. O autor descreve as desventuras de ser pobre, mas saber “se virar” no pós guerra. Descreve os amigos que sempre ajudam. É um texto gostoso de ler, sem suspense, sem mistérios, como se a gente fizesse parte da história. E faz tudo como se criasse um roteiro de filme.

Trechos do Livro: “…eficaz foi uma garota de catorze anos, que…esterilizou uma tesoura com que cortou o cordão umbilical. Fez tudo tal como havia lido num livro que não deveria ter lido.” “…estava com cinco anos e meio que contribuía para o sustento próprio e de sua mãe fazendo pequenos serviços no mercado negro…” “…o menino sabia o que faria quando fosse adulto e se sentisse infeliz: faria com que aquele pequeno colibri lhe beliscasse o braço, o colibri que injetava felicidade em sua avó.” “…encantava manter longos monólogos a altas horas da noite a respeito da falta de sentido de sua vida…” “Sabe que perdê-lo não foi menos terrível para mim do que para você…Creio que há mais mulheres com quem se pode estar casado que homens de quem se possa ser amigo.” “Gostava de tirá-lo da gaveta de sua secretária, abri-lo, preencher o cheque azul…secar a tinta e arrancá-lo da matriz com gesto elegante.” “…se deixava levar pela mesma mania…situar-se num terceiro plano e sonhar com uma vida que jamais foi vivida e jamais poderia sê-lo porque o tempo que lhe havia sido concedido para isso passara definitivamente.”

Somos Todos E.T.s

O livro As Crônicas Marcianas do autor americano Ray Bradbury, escrito em 1950 com prólogo de Jorge Liz Borges, é um livro de ficção científica, com histórias que se passam no Planeta Marte, onde vivem os humanos que foram enviados ou se mudaram pra lá. Também aparecem os marcianos, mas o autor gosta de colocar aquela dúvida se somos humanos ou extra-terrestres, portanto, em Marte, os ETs, somos nós. Algumas histórias são amorzinho e dá vontade de morar lá em Marte. Algumas histórias são creepy! Minhas favoritas são A Manhã Verde e Usher II que ele cita vários autores de histórias de terror e suas histórias, como a que dá nome a essa crônica inspirada em Poe.

Trechos do Livro: “Eles provavelmente não se importam de estarmos aqui…talvez tudo isso nos torne melhores.” “Será que eram ancestrais do homem da Terra, surgidos há dez mil anos? E será que tinham amado e odiado os mesmos amores e ódios, e feito as mesmas coisas tolas quando faziam coisas tolas?” “Se a arte não passava de uma expressão frustrada de desejo, se a religião não passava de ilusão, para que servia a vida?” “Os marcianos descobriram o segredo da vida entre os animais. O animal não questiona a vida. Simplesmente a vive. Sua única razão para viver é a vida.”

 

Proibido para Menores de 30. =0

O livro Laranja Mecânica do autor britânico Anthony Burguess, conta em 274 páginas (nesta edição comemorativa com 342 pág, com textos extras) a história de Alex e o livre arbítrio. Alex é um jovenzinho de 15 anos que tenta formar um grupo de desordeiros com mais três rapazes para “aterrorizar” o bairro onde mora. No começo da história, contada por ele mesmo,  ficamos sabendo que ele já foi preso anteriormente por esse motivo. E aí ele conta detalhes do sadismo, perversidade e anomalia do ser meio-humano que ele é. E não comete essas atrocidades porque está em grupo, não. Ele conta o estupro de crianças que ele pratica sozinho. E conta sobre a omissão de seus pais sobre sua conduta, quando deixa de ir à aula ou traz dinheiro pra casa. Então, ao ir novamente preso, pede pra participar de um programa do Governo que fará com que saia da cadeia pra nunca mais voltar. Esse sistema é um tipo de “hipnose/lavagem cerebral” que associa sensações físicas ruins quando ele pensa ou fala ou tenta fazer coisas ruins. E funciona. Ele sente vontade de vomitar e se sente doente toda vez que vê uma imagem das coisas que ele fez. Mas aí começa a briga dos “eleitores contra o Governo”, dizendo que esse método vai contra o livre-arbítrio do cidadão.

Problemática: A fala do personagem é transcrita toda numa gíria inventada por eles, o que torna o texto cansativo e às vezes chato. Parece que você está falando com um bebê: da-da-dá-gu-gu-gu.Se é apenas parte do texto, ok, mas abandonei Grandes Sertões por esse motivo: escrever conforme a fala, o livro TODO. A capa e a diagramação em papel diferenciado incentiva pegar o livro, mas as ilustrações são horríveis. Os textos extras também são bons.

Porque é bom? A escrita do autor, quando não usa palavras inventadas, é muito boa. Ele te convence a simpatizar com o monstro do Alex. Como faz isso? Fazendo ele usar palavras cultas, gostar de música clássica onde a Nona Sinfonia de Beethoven faz o fundo musical dessa história. E mostrando que tirar o livre-arbítrio da pessoa, pode tirar a parte ruim, mas leva a parte boa junto. O filme, do ótimo diretor Stanley Kubrick, peca por escolher atores tão velhos para o papel, mas já virou um clássico! (O livro é de 1962 e o filme de 1971.)

 

Trechos do Livro: “…a tentativa de impor ao homem, uma criatura evoluida e capaz de atitudes doces, que escorra suculento pelos lábios…afirmo que a tentativa de impor leis…” “A questão é se uma técnica dessas pode realmente tornar um homem bom. A bondade vem de dentro…bondade é algo que se escolhe.” “Pode não ser bom ser bom. Ser bom pode ser horrível. E quando digo isso a você, percebo o quão auto-contraditório isso soa.”

Um Personagem Egocêntrico

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O livro Solar do escritor inglês Ian McEwan, conta em 338 páginas, edição portuguesa, a história de um Prêmio Nobel de Física que recebe verba para suas pesquisas sobre energia. Ele coordena uma equipe e vê que não está dando muito certo e um de seus alunos oferece um dossiê com suas pesquisas, que ele nem olha. Após a morte desse aluno dentro de sua residência, em circunstância irônica, ele usa as pesquisas do aluno como se fosse sua e remodela suas pesquisas.

Problemática: o personagem rouba idéias; teve cinco casamentos e traiu todas elas; é gordo, baixo e calvo; um porcalhão; desleixado; usa tirinhas de bacon pra marcar livros; Ganancioso, egoísta, maquiavélico e mentiroso (segundo o próprio autor pág. 207). Tudo isso e se acha melhor que os outros.

Autêntico: a capa: linda, num tom de azul, com textura e remete à história. Os estudos científicos citados no livro, me fizeram lembrar do livro de Stephen Hawking que acabei de ler, então sei que o autor fez uma boa pesquisa sobre o aquecimento global e Mecânica Quântica.

Trechos do Livro: “…compreendendo que Beard tinha tudo pra ser um pai horrível, elas haviam se protegido…” “Se um extraterrestre chegasse à Terra e visse toda essa luz do sol, ele ficaria pasmo ao saber que temos um problema de energia.” “Às vezes lhe parecia haver pegado carona a vida inteira no trabalho de um jovem, um físico teórico mais competente e mais devotado do que ele jamais poderia ser.”