Eu não li Jane Austen

Quer dizer, não li Orgulho e Preconceito, que inspirou essa história:

O livro O Diário Secreto de Lizzie Bennet dos roteiristas Bernie Su e Kate Rorick, conta em 364 páginas a versão em livro da série de Tv de mesmo nome. Uma jovem na pós graduação resolve falar sobre as novas mídias sociais, então com a ajuda da amiga ela cria um canal no Youtube para fazer parte do seu projeto final do curso. Essas gravações são em sua casa onde mostra sua “versão dos fatos” sobre sua mãe controladora, seu pai super light, sua irmã criativa e outra irresponsável, seus amigos e conhecidos. As visualizações crescem muito rápido e sua professora pede pra conhecer pequenas empresas que fazem esse tipo de trabalho com mídias. Ela descobre que as pessoas não são exatamente o que ela pensa. O ser humano é complexo e não as idéias superficiais de uma estudante de mestrado. (WTF?)

O livro tem a capa em forma de diário, uma foto da atriz que faz a personagem principal na TV. A história é boa, mas com umas partes meio irreal: como uma moça já estudando mestrado em comunicação não presta atenção ao que está acontecendo à sua volta? Ela “define” cada pessoa e bota um rótulo. Simples assim. E depois ( muitas burradas depois) ela consegue enxergar o que cada um pode ser. Ou não. Não consegui assistir nem dois episódios da série: achei muito ruim.

Trechos do Livro: “O projeto é registrar minha vida em casa em novas mídias, e eu não vou conseguir fazer isso direito se…Além do mais, só vai durar algumas semanas.” “…toda vez que alguém faz contato comigo online e diz que gosta dos meus vídeos…eu meio acho que estou conseguindo.” “Foi pra isso que inventaram o Facebook: para manter a uma distância segura pessoas das quais você não quer se lembrar.” “Mas, quem sabe, talvez eu esteja errada- eu errei em relação a muitas pessoas ultimamente.”

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Os homens são maus :/

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O livro Te Tratarei como Uma Rainha da autora espanhola Rosa Montero conta em 192 páginas a história de Bela, que trabalha num bar onde além de limpar e servir os drinks, também toca piano e canta boleros. Não realizou seus sonhos de vida – ser famosa, nem seus sonhos de amor – se casar com o namorado de quando era adolescente. Antônio ainda está solteirão, baixinho e com um sorriso bonito, seu hobby é se envolver com mulheres casadas infelizes no casamento. Seu intuito é mostrar (e ouvir) que ele é um perfeito cavalheiro. Mas quando elas querem uma vida com ele, ele some, deixando as mulheres sofrer por amor. Ele tem uma irmã Tônia que está virgem e solteirona. Ela deixou a mãe no interior e veio morar na cidade perto do irmão que é dono de uma perfumaria. Ele a odeia porque é gorda. Ela se envolve com o vizinho adolescente, que é convocado pelo exército e vai embora. Um outro personagem é Pouco. Mora no escritório do bar onde Bela trabalha. Misterioso, renova as esperanças dela quando a convida a ir para Cuba onde conhece o dono do famoso bar Tropicana. Mostra uma carta-convite. Mas quer levar Vanessa, uma garota linda que frequenta o bar para arranjar clientes. Mas ela odeia Pouco porque é velho, pobre e feio. Ela se envolve com Antonio que é o ex de Bela. Está formado um círculo com todos os personagens que não são o que aparentam.

⚠️Spoiler!

Problemas: Me incomoda quando a sinopse mente. A pessoa que escreve a orelha devia ler a história toda e não somente o 1° capítulo para passar a idéia do livro. Ele ( a pessoa que escreveu) diz que Damian é irmão da Antonia: eles são amantes e ele não é charmoso: é adolescente e estrábico. Não há assassinato nenhum e saberia se tivesse lido a história toda. Na última capa diz que a irmã é caridosa: ela não faz nenhuma caridade o livro inteiro!! A editora Nova Fronteira nem se deu ao cuidado de escolher entre tanta gente boa na internet que teria escrito a orelha de graça.

Trechos do Livro: “…seu homem poderia esperá-la na saída do trabalho e defendê-la dos perigos da rua, mas quem a defenderia, depois, do seu homem?” “O tempo dela também tinha se acabado…Mas há anos que não tinha lembranças, há anos que todos os dias eram o mesmo dia… Há anos que tinha deixado de esperar que algo acontecesse.” “…sabia que o amor só podia existir assim, envolvido em sua própria mentira, isolado da realidade e do contexto, uma espiral de sonho com final previamente estabelecido.”

Romance com sabor

O livro Como Água Para Chocolate da autora Laura Esquivel, conta em 205  páginas a história de Tita que foi criada na cozinha e por isso aprendeu a cozinhar com emoção. Todo alimento cozinhado com lágrimas, fazia com que todos chorassem. Ao cozinhar com amor, todos que se alimentaram se sentiram invadidos por ondas de amor. Por ser a filha mais nova, Tita deve seguir a tradição da família e nunca se casar para cuidar da mãe. Ao se apaixonar, ela rejeita essa tradição, o que cria um atrito com a mãe. O rapaz aceita se casar com a irmã mais velha dizendo que é pra ficar perto dela. A história mostra o rapaz como um fraco, que aceita esse casamento sério, mas não quer que nenhum homem queira se casar com Tita, mesmo após a morte de sua mãe. Para acompanha as histórias, cada início de capítulo conta com uma receitas tradicional mexicana, uma para cada mês do ano. E a história contada em sequência de meses, chega em dezembro e diz que a irmã “…havia morrido há um ano.” O capítulo deveria se chamar DEZEMBRO DO ANO SEGUINTE.

Trechos do Livros: “…durante a infância Tita não diferençava bem as lágrimas do riso das do pranto. Para ela, rir era uma maneira de chorar. Da mesma forma confundia o gozo de viver com o de comer..” “…os odores (dos alimentos) tem a característica de reproduzir tempos passados junto com sons e odores nunca igualados no presente.” “…inventava uma nova receita com a intenção de recuperar a relação que entre ela e Pedro havia surgido através da comida. Desta época de sofrimento nasceram suas melhores receitas.” “A vida havia lhe ensinado que a coisa não era tão fácil, que são poucos os que se fazendo de espertos conseguem realizar seus desejos à custa do que quer que seja…”

O filme mexicano de mesmo nome foi lançado em 1992 e tem muito  em comum com o livro:

Romance Histórico

O livro O Amante da Virgem da autora inglesa Philippa Gregory, conta em 443 páginas a história da rainha Elizabeth I, que aos 25 anos herda um país falido, em guerra, é odiada por muitos, mas ainda assim pensa em festas, vestidos e homens. Não para casar, como quer o seu amigo e conselheiro Cecil. Todos querem que ela se case com um homem que possa governar. Ela se encanta pelo aristocrata e estribeiro, bronzeado e bonito Dudley. Junto com ele, arma para que sua jovem mulher morra para que possam ficar juntos, sem que a igreja católica a chame de adúltera como fez com sua mãe.

Toda a pesquisa que a autora fez, mostra Amy, a esposa de Dudley, como personagem principal. Os livros citados na “nota da autora” são todos sobre a morte e vida de Amy Dudley.

Trechos do livro: “Você diz que faz isso por nós, mas não é o que quero, de nada me serve. Quero-o em casa comigo, não me importa que não tenhamos nada.” “E ela era Tudor o bastante para apresentar um bom espetáculo. Tinha o talento de sorrir para uma multidão, como se cada um e todos recebessem sua atenção…” “…e o casal poderia recomeçar de novo. Seriam parceiros num empreendimento típico da época: promover a fortuna da família: o homem movendo-se e negociando na corte, enquanto a mulher cuidava de suas terras…” ” Às vezes não parecia uma rainha chegada à grandeza pela sorte e pela astúcia. Às vezes era mais uma menina com uma tarefa difícil demais para realizar sozinha.”

Baseado em fatos verídicos

O livro O Planalto e A Estepe do autor angolano Pepetela, conta uma história de um amor proibido entre dois estudantes na Rússia. Ele angolano de olhos azuis; ela filha do ministro da Mongólia. Em 188 páginas recheadas de guerra e idealismo juvenil nos anos 60, em que os povos lutavam para ser “como um só”. Julio ama Sarangel e quer se casar com ela. Mas as questões políticas os afastam. Ele, ganhador de uma bolsa para estudar em Moscou, passa o tempo namorando e engravida a menina. O ministro toma as rédeas da situação e a afasta de Moscou, levando-a de volta pra Mongólia. Ele faz de tudo pra reencontrá-la, mas nem as pessoas influentes que ele conhece, conseguem ajudá-lo. Então ele vai pra guerra, descobre a realidade por trás da utopia, que as idéias são boas mas não sobrevivem à prática.

O livro é bom, bem escrito, bem focado, sem dispersão. E com poesia. Mas…

⚠️Spoiler: o personagem principal é muito sem noção: criança ele prefere andar com os negros, porque não é racista. Mas o que parece é que ele faz isso porque eles o tratam como superior, o que os colegas não fazem. Quando jovem briga com a família e nem pensa na guerra que eles estão vivendo lá na África. E passa páginas tentando convencer o leitor que ele só queria sua filha e sua mulher porque ele se importa com a família. Ele não dá valor as próprias conquistas, porque quer se vingar do pai da Sarangel tendo ela de volta. Parece uma criança de quem tiraram o doce. Dá até uma felicidade saber que ela se saiu bem: casou com um embaixador e teve dois filhos estudiosos com ele. Enquanto ele fazia criancices por aí.

Mas mesmo com um personagem sem noção, vale a pena a leitura.

Trechos do livro: “Foi mesmo a primeira música que aprendi a ouvir. Os ritmos variam, conforme a nuvem de chuva é mais grossa ou menos espessa, ou conforme a força e direção do vento. ” ” O tempo goza com a nossa estúpida vaidade, passa por nós como um foguete, nos torna seus escravo.” “Mas eu não era amigo dos pretos por serem pretos, nem via bem as cores…era amigo dos meus amigos…” “Quando a gente é pequena, só o dinheiro faz horizontes se abrirem.” “Só para os profetas e os escritores as palavras são sagrados.” “…ela não vai saber que o nosso relacionamento começou com uma mentira sem gravidade. Há quem jure, uma relação sã só admite a verdade.” “Parecia um bicho defendendo seu espaço, ah, a emancipação das mulheres, estudávamos…mas era algo teórico.” “…não acontecerá nada porque não reparamos neles. Se repararmos nesses bizarros estudantes e fizermos qualquer coisa contra ou a favor deles, aí sim, eles passam a existir realmente e os problemas se tornam também reais”.

Livros e Drinks

O livro Conversas e Cosmopolitans é uma quase biografia do autor Robert Rave que escreve esse romance junto com sua mãe Jane Rave. Aos 21 ele resolve sair de uma cidade pequena, filho caçula e ir morar em Nova York. O capítulo 1 é uma carta que ele manda pra sua mãe se assumindo homossexual. Cada capítulo é narrado por um deles: o que ele pensa que a mãe vai achar/pensar e o que ela realmente acha. A mãe dele é muito mais bem resolvida do que ele em relação à sair do armário para os amigos e a família. Ela se preocupa como as pessoas vão tratar mal seu filho. Ela ajuda com a auto-aceitação, que até o fim da história não está bem resolvida. Ele finge ser homem para as amigas, para as garçonetes, até para os gays!!

Com uma ironia sobre a vida, a história mostra um preconceito dentro da própria comunidade. Eles só aceitam os bonitos, sarados e com sucesso profissional. E como qualquer ser humano exigente, correm o risco de envelhecer sozinho.

Trechos do livro: ” Nós, da raça humana, não gostamos de pessoas. Se fosse por mim, eu preferiria não ter nenhum contato humano com ninguém…Meu amor pelo próximo foi substituído pelo amor pela tecnologia…me deu a opção de evitar todo mundo completamente.” “Nenhum casal tem um relacionamento perfeito – não importa se você é hetero ou gay.” ” Queria encontrar pessoas como eu, mas, ao mesmo tempo, eu tinha a paranóia de que seria taxado de gay; então sempre ficava em cima do muro.” “Tenho certeza de que você não esperava ter esse tipo de reação de alguém de sua própria tribo, mas garanto que existem pessoas bizarras em todo lugar…” ” Aqui estava eu, morando em Nova York, supostamente ‘assumido’ depois de declarar meu orgulho gay para minha família e meus amigos, mas…aprendi que a questão nunca foi ter ou não orgulho de ser gay; a questão era se eu tinha ou não orgulho de ser eu mesmo.”

Os Confederados

O livro Por Ocasião da Minha Última Tarde da premiada autora americana Kaye Gibbons, conta em 287 páginas a história de um homem muito mau que vivia com a família numa grande casa na Carolina do Norte. A história começa em 1842 e é contada em primeira pessoa pela filha desse homem, que vê os brancos enriquecerem às custas dos serviços dos negros escravizados. Ela e a mãe não concordam com as atitudes do seu pai e ela se casa com um “abolicionista” médico.

A partir daí o livro conta os horrores vividos durante a guerra dos confederados, onde ela ajuda o marido médico a salvar vidas. O pai dela continua mau até o final do livro: nem a guerra, nem a perda da fortuna, nem a doença que o faz ficar sem andar faz com que goste das pessoas.

É um livro dramático, pesado, mas muito bem escrito. Fiquei curiosa sobre esse período após esse post que fiz.

Trechos do Livro: “Ela não afagou meus cabelos, não me acalmou, pois tais delicadezas não eram do seu feitio e porque, naquele momento, não estava com nenhuma disposição de permitir que uma menina branca ficasse choramingando…quando era um dos seus…que fora assassinado…” “O velho disse que eu poderia ficar com os meninos, pois seus cérebros já tinham sido estragados para o trabalho decente.” “Então, beijou a testa de Clarice. Sentou na espreguiçadeira no canto do quarto e chorou, o amargo fruto por ter tratado Clarice como uma criada negra, e não como a mulher que transformara Seven Oaks num lar.”