Sobre consequências dos atos

mulher

O livro 24 horas na Vida de Uma Mulher do autor austríaco Stefan Zweig, conta em 107 páginas a história de um grupo em um hotel que se encontra sempre à mesa. Nesse grupo tem o narrador, senhor de idade solteiro,  um casal mais jovem, um casal idoso e um casal com duas filhas adolescentes.  Um jovem rapaz chega ao hotel e a mãe abandona as filhas, o marido e foge com ele. A partir do fato, toda a discussão gira em torno do fato: devemos seguir nosso coração sem se importar com as consequências? O narrador acha que sim e defende a mulher.  Então a senhora idosa resolve contar sua história e as consequências de um caso com um desconhecido.
Trechos do livro: “E aquela dor elementar nos deixou a todos atordoados…como que envergonhados diante dessa esmagadora explosão de sentimentos. ..aquela criatura derrotada na sala escura …soluçando inteiramente sozinha. ..”
“…apenas disfarçava o medo do próprio instinto,  do demoníaco em nossa natureza,  e certas pessoas pareciam gostar de se julgar mais fortes,  mais morais e mais puras do que as fáceis de seduzir. “
Existe um enigma envolvendo o suicídio do autor, junto com sua mulher, repetindo a cena de Shakespeare.

 

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principe

O famoso livro O Príncipe de Nicolau Maquiavel, tem a fama de ser amoral e só fazer juz à traição, inveja, orgulho, mas é apenas ficção, uma carta em forma de conselhos para um jovem príncipe sem experiência de guerras e reinos, inimigos e igreja, soldados e milícia. Então tornou-se um tratado de como o Estado deve proceder com seus subordinados de forma rígida. Mas ele têm boas idéias e usa as guerras e seus nobres como exemplo do que deu certo ou não e porque. Apesar do termo maquiavélico ser sinônimo de amoral e pérfido, na verdade o autor fala muito de ética no trato com seus súditos. Esta edição possui, em 165 páginas, uma introdução escrita pelo tradutor Antonio D’Elia que explica um pouco sobre o período em que o livro foi escrito, o que se passava na Europa, especificamente na Itália. O Cinquetento, conhecido como o século negro e vergonhoso para a Itália em todas as áreas: artes, religião, literatura. “O leitor não sente a transição entre passado e presente, entre o tom argumentativo e o tom exemplificativo, tão bem ajustadas estão as peças da exposição”. 

Trechos do Livro:  “…É muito fácil mantê-los, principalmente quando não estão afeitos a existir com independência…”

Histórias de Quintal Tag

Adoro o canal da Angela Alhanati, Ao Sol no Quintal. Ela criou essa Tag. Vou escolher alguns livros e responder.

1. Um livro triste: não gosto de ler não-ficção de fatos reais, que geram livros tristes. Então uma ficção triste é Naufrágios de Akira Yoshimura

Naufragios

2. Um livro divertido: livros infantis são sempre divertidos. Indico Ghostgirl

ghost

3. O primeiro livro adulto que leu: Eu tinha doze anos e li O Mulo da biblioteca da escola.

mulo

4. Um livro que marcou a adolescência: toda a série Vaga Lume.

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5. Melhor autor que a escola lhe apresentou: Érico Veríssimo

erico

6. Um livro lido por causa de um crush: A Arte da Guerra

arte guerra

7. Um livro que gosta de dar de presente: livros de poesias ou com histórias fofas, vou citar dois: Presente do Mar e Por um simples Pedaço de Cerâmica

 

8. Um livro que provocou muita angústia: não gosto de ler drama, mas algumas situações de livros me deixam mal, como nas série A Canção de Gelo e Fogo e Millenium.

menina

9. Um livro que sentiu muita dificuldade em terminar a leitura: enrolei muito pra ler Mia Couto. Acho que comecei pelo livro errado.

mia

10. Um livro que foi divisor de águas em sua vida: Tenho vários clássicos favoritos da vida e até alguns religiosos. Mas até estou relendo pra ver se ainda me choca: O Príncipe de Maquiavel

maquiavel

Liberado para alunos? =/

noite

O livro Noite na Taverna do autor nacional Álvares de Azevedo, é uma espécie de livros de contos de terror. Em 86 páginas temos cinco amigos mais o narrador que estão em uma taverna bebendo já algum tempo e resolvem contar histórias de loucuras de amor, do ato de fazer amor literalmente. E essas loucuras incluem amar uma moça e descobrir ser sua irmã (incesto); amar a mulher do seu “salvador” e traí-lo sequestrando a moça; amar a mulher do patrão e fazê-la cometer um crime; amar uma moça que morre e trazê-la de volta à vida (necrofilia).  Nenhuma das histórias termina bem, mas nenhuma delas pode ser verdade, já que todos sobreviveram a essas histórias absurdas, dramáticas e aterrorizantes. “…o sentido geral de todas elas é único: as paixões mais intensas são fatais e levam os amantes a todo e qualquer tipo de transgressão; os que não morrem delas viverão condenados ao remorso eterno…”

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Literatura da época do Romantismo brasileiro, narrativas que idealizavam a mulher amada como objeto de adoração e que misturam amor e morte, esse livro foi publicado em 1855. Vê-se no autor a influência européia na escolha dos nomes dos personagens, nos lugares onde se passam as narrativas e nas citações de poetas e filósofos estrangeiros. Já foram lançadas Hq e várias escolas já postaram trabalho de alunos do Ensino Médio sobre o livro. Minha opinião: muito drama, pouca história. Existem livros mais interessantes desse período pra indicar aos alunos.

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História e Imaginação

Águia, o livro I da série Boudica da autora Manda Scott, conta em 653 páginas a história da famosa guerreira da Britânia, Boudicca que lutou contra Roma na revolta de 60 d.C. A autora em sua Nota no final do livro, conta que usou fontes da história real e misturou com ficção para criar sua história. É o famoso “baseado em fatos reais”, mesmo que ela diga nas notas que o único registro que se tem dessa guerreira durante a revolta, é contado pelo inimigo, no caso, Roma, portanto “com todas as distorções políticas, culturais e sociais que isso implica.”

O primeiro livro conta a história da menina Breaca (lê-se Brayahca) quando aos doze anos mata um guerreiro que entra em sua tenda e vê a morte de sua mãe, perde seu irmão menor levado como escravo, perde seu pai em uma batalha, ama a vidente Airmid, mas depois encontra amor nos braços do guerreiro de outro país Caradoc. Alguns capítulos retornam no tempo para mostrar Bán seu irmão vivendo como cativo do inimigo Amminios, irmão de seu amor. O livro finaliza com o início da batalha entre os romanos, onde seu irmão se tornou guerreiro e os da Britânia, onde Breaca é a lider de cabelos vermelhos.

Problemas: não dá pra entender uma tribo com videntes que lêem até pensamento, não descobrir que Bán não está morto e sim escravizado pelo inimigo. Não dá pra entender como as notícias correm entre as tribos, mas Bán entre os guerreiros de Roma, não desconfia que sua família está liderada pela sua irmã, até ver sua mãe morrer pela espada de um de seu grupo. Não há o encontro entre os dois, mas pra um personagem idealizado como futuro vidente, ele altera entre esperto e distraído todo o tempo. Nesse primeiro livro, os personagens centrais são meio imprecisos, não conseguindo determinar as características fortes de cada um. Por exemplo, Breaca é mostrada como uma guerreira forte e valente escolhida entre os melhores. Mas perde a primeira luta, perde o pai numa segunda luta e foge na terceira batalha. Os videntes: têm visões pela metade, não sabem o que significa, pessoas próximas duvidam de suas visões.

Vale a pena: as descrições das lutas e batalhas, os detalhes sobre os animais (talvez porque a autora é veterinária), a mistura histórica, o crescimento dos personagens.

Outros autores já escreveram histórias sobre Boudicca e a guerra entre Bretanha e Roma:

O Vídeo da Hora: This is America

Várias foram as interpretações e entrevistas sobre o vídeo This is America (Childsh Gambino), com  o ator Donald Glover, com duração de apenas 4 minutos e 4 segundos. É fantástico como mostra a diferença entre a realidade e a ficção da mídia, a forma como a mídia manipula as informações. Todo o contraste entre a mídia mostrando os clips de negros ricos e no fundo os negros sofrendo com racismo, polícia, morte. A arma sendo adorada e os mortos descartados, o celular sendo usado como ferramenta – para os ricos, como “kodak”, para os pobres como conexão.

Uma das melhores análises do clip que pude ver na internet, está em inglês e é da Vicky Hope. 1– A  primeira referência é do músico que se parece fisicamente com o pai de Travyon Martin, assassinado por um branco. E depois Gambino atira na cabeça coberta dele. Porque as pessoas não querem ver. 2– Suas danças são inspiradas em ritmos africanos famosos na web. Quando a câmera aproxima de seu rosto ele imita o personagem Uncle Ruckus, um homem negro que se acha branco e é racista.

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3–   Bem aqui, Gambino se apresenta como o ministro Jim Crow, um personagem inventado por volta de 1900, quando o blackface foi inventado por comediantes brancos.(As leis de Jim Crow foram leis locais e estaduais, promulgadas nos Estados do sul dos Estados Unidos, que institucionalizaram a segregação racial, afetando afro-americanos, asiáticos e outros grupos étnicos. Vigoraram entre 1876 e 1965.) Os Jim Crows eram uma paródia racista dos negros. Nessa imitação no clip ele atira em numa interpretação de um ‘escravo’ -pessoa negra com as mãos amarradas e pés descalços.

4– Após matar um homem, a arma é tratada com grande importância, enquanto o corpo é descartado. 5– A calça que Gambino está usando fazem parte do uniforme oficial dos soldados confederados clássicos, usada na guerra civil. 6– Mesmo depois de matar um homem negro, Gambino dança de forma alegre, sendo seguido por crianças inocentes da escola. Eles estão claramente copiando tudo o que ele faz porque ele é ‘legal’. 7– Enquanto as danças e a diversão acontece, o fundo está um caos. Pra que se preocupar com problemas “dos outros”, quando eles estão se divertindo tanto! 8– A Igreja sempre foi considerada um refúgio seguro para os negros. O coral está cantando e ele entra na vibe do coral, mas muda a fisionomia e atira em todos. Isso se refere ao massacre na Igreja de Charleston em 2015, um outro assassinato em massa de pessoas negras na América. 9– Ele fala do celular como ferramenta e a câmera mostra adolescentes com parte do rosto coberto usando celulares.

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10- Gambino faz um gesto de arma, ouve-se o tiro e todos vão embora, enquanto ele fuma um cigarro de maconha e sobe num carro vermelho e dança como Michael Jackson, enquanto a cantora Sza se apresenta como a estátua da liberdade, ironia à liberdade dos negros.

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11– De repente a tela fica black e surge uns olhos em pânico e Gambino aparece fugindo, correndo e todos os negros estão fugindo. Para onde?

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Prefiro o título original =/

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O Jogo da Vida (A Patchwork Planet) da premiada autora Anne Tyler, com 315 páginas, é um livro sobre a colcha de retalhos que é a vida, numa fase complicada que é a velhice e cita um objeto de um personagem do livro, que passa a história fazendo uma colcha e no final da vida, a herdeira vê que tem um planeta estampado nela. Então por que mudar o título?? Porque a pessoa não leu/entendeu a história. O personagem principal é um rapaz entrando nos 30, divorciado, com uma filha, com pai dono de uma empresa, mas trabalho em serviços gerais em uma outra empresa que presta serviços para idosos. Ele teve muitos problemas durante a adolescência, furtando coisas na vizinhança, e seus pais decidiram colocá-lo num colégio interno. Ele não aprende nada. E só no final ele descobre que todo o problema em se relacionar, não aceitar as regras, vêm da Síndrome de Tourette, por isso é tratado como maluco pela família. Seu irmão e amigos de infância, todos bem-sucedidos, não lhe causam inveja, mas repulsa. Sem perceber, ele gosta dos “velhinhos” para os quais presta serviços. O que me incomodou é essa fase “sem noção” do personagem e o livro sem final. Além de preferir o título original, prefiro as capas americanas que remetem à história. Essa capa da minha edição (Ed. Mandarim; Geiza Caria) foi confeccionada por alguém que não leu a história. =/

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Trechos do livro: “Não conseguia ficar quieta. Sempre havia nela uma insatisfação, um fulgor e uma agitação que me deixavam nervoso.” “E quem se importa se meu emprego não tem futuro?…Preciso pagar meu aluguel e as despesas com supermercado, mais nada.Não estou querendo enriquecer.” “O anjo de todos os outros transmitira uma mensagem e parara por aí. O meu anjo, no entanto, parecia ser mais insistente.” “Quando chega a primavera parece até que está no paraíso…Enquanto eu puder andar por meu jardim toda manhã antes de fazer qualquer outra coisa, para verificar o que brotou durante a noite e o que está prestes a desabrochar, sentirei que tenho alguma coisa pela qual vale a pena permanecer viva.” “E fico desejando ser capaz de reorganizar minha vida, de uma forma que eu nunca mais precise lidar com outro ser humano.” “O tempo pessoal funciona de maneira oposta à do tempo histórico.”

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