Protesto não é baderna ;)

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O livro The Hate you Give (O Ódio que Você Semeia) da autora americana Angie Tomas, conta em 376 páginas a história de uma família de uma comunidade negra que quer ser uma família que preza pelo bom nome. Então eles vão à igreja, os filhos estudam numa escola da classe média alta, longe da comunidade, não se envolvem com as coisas ruins que geralmente acontecem em comunidades carentes. Mas o chefe da família já foi preso por ter se envolvido com gangues e ter vendido drogas, por isso ele fica de olho nos filhos. O ponto de vista da história é de uma adolescente de dezesseis anos que estuda uma escola de brancos, tem amigos brancos e um namorado branco. Na escola ela não fala gíria, não senta de qualquer jeito, tem atitudes diferentes, sabe “se portar”. Já na comunidade joga basquete na quadra suja e quebrada, vai em festas onde tem drogas e bebidas para menores. Numa dessas festas sai um tiroteio e ela e um amigo que não vê há muito tempo, vão embora de carro. Então um policial pára o carro, e numa abordagem esse amigo leva um tiro e acaba morrendo. A menina fica chocada por ter uma arma apontada pra ela por um policial branco.

Daí em diante o livro conta a dúvida da família de colocar a garota como testemunha, as ameaças que a família sofre dos dois lados, tanto da polícia quanto dos bandidos do bairro que não gostam de “dedo-duro”. Da advogada ativista que recruta jovens pra uma passeata que acaba em confusão. E como diz o título, é errado pensar que mostrar sua revolta com ódio, faz com que as pessoas entendam seu ponto de vista. Compara as casas de Hogwarts com as gangues.

O título vem de uma música do rapper conhecido como Tupac Shakur que diz e é citada no livro: “o ódio que você passa pra criancinhas fode com todo o mundo”. As letras de suas músicas falam sobre como é crescer no meio da violência e da miséria nos guetos, o racismo, os problemas da sociedade e os conflitos com os outros rappers. Uma de suas letras que mais gosto é “…I believe that everything that you do bad comes back to you. So everything that I do that’s bad, I’m going to suffer from it. But in my mind, I believe what I’m doing is right. So I feel like I’m going to heaven.”

PROBLEMAS X TRECHOS DO LIVRO: a tradução perde muito do original; se possível leia em inglês. Por ter apenas a visão da protagonista e saber que adolescente não consegue perceber a responsabilidade dos atos, as motivações do protesto começam com motivos como ficar sem aula, não ter provas, raiva, botar fogo em alguma coisa. A frase:”O maior problema é Chris ser branco.”, tem a melhor tirada da mãe da adolescente: “Ele poderia ter uma pele com bolinhas coloridas, desde que trate você bem e que não seja bandido.”

“As pessoas agem como se eu fosse a representante oficial da raça negra e me devessem uma explicação.” “…você, com uma chance de ajudar a mudar o que acontece no nosso bairro todo, mas fica calada.”_ pois é, o que ajyda a mudar coisas são as políticas públicas. Adolescentes só podem se fazer ouvir, principalmente nas urnas.

“Só odeio o fato de ele estar sendo chamado de bandido…e se todo mundo soubesse por que ele vendia drogas…”_ ter um motivo nobre não torna uma ilegalidade, legal.

“Mas vejo uma pessoa feliz de finalmente estar com dinheiro na mão, que se dane de onde veio.” _ ela não descreve isso de forma triste, mas como im apoio. ERRADO. Ele não era responsável por sustentar a família. E a loja da familia dela já tinha dado um emprego pra ele. Que ele não quis.

Afinal, ela não aprendeu com a canção do Tupac. Tratar as pessoas como você gostaria de ser tratado.

O filme de mesmo nome foi lançado em 2018, tendo mostrado um lado mais ativista da comunidade.

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Baseado em fatos verídicos

O livro O Planalto e A Estepe do autor angolano Pepetela, conta uma história de um amor proibido entre dois estudantes na Rússia. Ele angolano de olhos azuis; ela filha do ministro da Mongólia. Em 188 páginas recheadas de guerra e idealismo juvenil nos anos 60, em que os povos lutavam para ser “como um só”. Julio ama Sarangel e quer se casar com ela. Mas as questões políticas os afastam. Ele, ganhador de uma bolsa para estudar em Moscou, passa o tempo namorando e engravida a menina. O ministro toma as rédeas da situação e a afasta de Moscou, levando-a de volta pra Mongólia. Ele faz de tudo pra reencontrá-la, mas nem as pessoas influentes que ele conhece, conseguem ajudá-lo. Então ele vai pra guerra, descobre a realidade por trás da utopia, que as idéias são boas mas não sobrevivem à prática.

O livro é bom, bem escrito, bem focado, sem dispersão. E com poesia. Mas…

⚠️Spoiler: o personagem principal é muito sem noção: criança ele prefere andar com os negros, porque não é racista. Mas o que parece é que ele faz isso porque eles o tratam como superior, o que os colegas não fazem. Quando jovem briga com a família e nem pensa na guerra que eles estão vivendo lá na África. E passa páginas tentando convencer o leitor que ele só queria sua filha e sua mulher porque ele se importa com a família. Ele não dá valor as próprias conquistas, porque quer se vingar do pai da Sarangel tendo ela de volta. Parece uma criança de quem tiraram o doce. Dá até uma felicidade saber que ela se saiu bem: casou com um embaixador e teve dois filhos estudiosos com ele. Enquanto ele fazia criancices por aí.

Mas mesmo com um personagem sem noção, vale a pena a leitura.

Trechos do livro: “Foi mesmo a primeira música que aprendi a ouvir. Os ritmos variam, conforme a nuvem de chuva é mais grossa ou menos espessa, ou conforme a força e direção do vento. ” ” O tempo goza com a nossa estúpida vaidade, passa por nós como um foguete, nos torna seus escravo.” “Mas eu não era amigo dos pretos por serem pretos, nem via bem as cores…era amigo dos meus amigos…” “Quando a gente é pequena, só o dinheiro faz horizontes se abrirem.” “Só para os profetas e os escritores as palavras são sagrados.” “…ela não vai saber que o nosso relacionamento começou com uma mentira sem gravidade. Há quem jure, uma relação sã só admite a verdade.” “Parecia um bicho defendendo seu espaço, ah, a emancipação das mulheres, estudávamos…mas era algo teórico.” “…não acontecerá nada porque não reparamos neles. Se repararmos nesses bizarros estudantes e fizermos qualquer coisa contra ou a favor deles, aí sim, eles passam a existir realmente e os problemas se tornam também reais”.

Os Confederados

O livro Por Ocasião da Minha Última Tarde da premiada autora americana Kaye Gibbons, conta em 287 páginas a história de um homem muito mau que vivia com a família numa grande casa na Carolina do Norte. A história começa em 1842 e é contada em primeira pessoa pela filha desse homem, que vê os brancos enriquecerem às custas dos serviços dos negros escravizados. Ela e a mãe não concordam com as atitudes do seu pai e ela se casa com um “abolicionista” médico.

A partir daí o livro conta os horrores vividos durante a guerra dos confederados, onde ela ajuda o marido médico a salvar vidas. O pai dela continua mau até o final do livro: nem a guerra, nem a perda da fortuna, nem a doença que o faz ficar sem andar faz com que goste das pessoas.

É um livro dramático, pesado, mas muito bem escrito. Fiquei curiosa sobre esse período após esse post que fiz.

Trechos do Livro: “Ela não afagou meus cabelos, não me acalmou, pois tais delicadezas não eram do seu feitio e porque, naquele momento, não estava com nenhuma disposição de permitir que uma menina branca ficasse choramingando…quando era um dos seus…que fora assassinado…” “O velho disse que eu poderia ficar com os meninos, pois seus cérebros já tinham sido estragados para o trabalho decente.” “Então, beijou a testa de Clarice. Sentou na espreguiçadeira no canto do quarto e chorou, o amargo fruto por ter tratado Clarice como uma criada negra, e não como a mulher que transformara Seven Oaks num lar.”

O Vídeo da Hora: This is America

Várias foram as interpretações e entrevistas sobre o vídeo This is America (Childsh Gambino), com  o ator Donald Glover, com duração de apenas 4 minutos e 4 segundos. É fantástico como mostra a diferença entre a realidade e a ficção da mídia, a forma como a mídia manipula as informações. Todo o contraste entre a mídia mostrando os clips de negros ricos e no fundo os negros sofrendo com racismo, polícia, morte. A arma sendo adorada e os mortos descartados, o celular sendo usado como ferramenta – para os ricos, como “kodak”, para os pobres como conexão.

Uma das melhores análises do clip que pude ver na internet, está em inglês e é da Vicky Hope. 1– A  primeira referência é do músico que se parece fisicamente com o pai de Travyon Martin, assassinado por um branco. E depois Gambino atira na cabeça coberta dele. Porque as pessoas não querem ver. 2– Suas danças são inspiradas em ritmos africanos famosos na web. Quando a câmera aproxima de seu rosto ele imita o personagem Uncle Ruckus, um homem negro que se acha branco e é racista.

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3–   Bem aqui, Gambino se apresenta como o ministro Jim Crow, um personagem inventado por volta de 1900, quando o blackface foi inventado por comediantes brancos.(As leis de Jim Crow foram leis locais e estaduais, promulgadas nos Estados do sul dos Estados Unidos, que institucionalizaram a segregação racial, afetando afro-americanos, asiáticos e outros grupos étnicos. Vigoraram entre 1876 e 1965.) Os Jim Crows eram uma paródia racista dos negros. Nessa imitação no clip ele atira em numa interpretação de um ‘escravo’ -pessoa negra com as mãos amarradas e pés descalços.

4– Após matar um homem, a arma é tratada com grande importância, enquanto o corpo é descartado. 5– A calça que Gambino está usando fazem parte do uniforme oficial dos soldados confederados clássicos, usada na guerra civil. 6– Mesmo depois de matar um homem negro, Gambino dança de forma alegre, sendo seguido por crianças inocentes da escola. Eles estão claramente copiando tudo o que ele faz porque ele é ‘legal’. 7– Enquanto as danças e a diversão acontece, o fundo está um caos. Pra que se preocupar com problemas “dos outros”, quando eles estão se divertindo tanto! 8– A Igreja sempre foi considerada um refúgio seguro para os negros. O coral está cantando e ele entra na vibe do coral, mas muda a fisionomia e atira em todos. Isso se refere ao massacre na Igreja de Charleston em 2015, um outro assassinato em massa de pessoas negras na América. 9– Ele fala do celular como ferramenta e a câmera mostra adolescentes com parte do rosto coberto usando celulares.

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10- Gambino faz um gesto de arma, ouve-se o tiro e todos vão embora, enquanto ele fuma um cigarro de maconha e sobe num carro vermelho e dança como Michael Jackson, enquanto a cantora Sza se apresenta como a estátua da liberdade, ironia à liberdade dos negros.

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11– De repente a tela fica black e surge uns olhos em pânico e Gambino aparece fugindo, correndo e todos os negros estão fugindo. Para onde?

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Veja o filme, Leia o livro.

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O livro O Som e a Furia do autor americano William Faulkner, ganhador do prêmio Nobel,  é totalmente diferente de todo tipo de narrativa conhecida por mim. Em 331 páginas o autor conta a história de uma família, onde todos os envolvidos – criados, netos, agregados, pais e filhos – têm algum problema, algum desajuste e cada movimento é em direção à decadência. Um dos filhos é deficiente mental, o outro é egoista, a filha engravida fora do casamento em pleno 1929, e acontece desde machismo, incesto, suicídio, roubo, vingança e racismo. É uma história muito boa, bem escrita, mas a forma inovadora de contar, primeiro pelo ponto de vista do filho deficiente mental, que conta o presente, indo e voltando entre sua infância e juventude, sem definir o que está acontecendo e o que são lembranças, deixa o livro cansativo. Tudo se mistura nessa primeira parte e me pareceu ser um erro da tradução. Mas, não.

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Então, para não desistir do livro, resolvi assistir o filme de James Franco, de 2014. O filme também é dividido como o livro. Assisti a primeira parte e voltei a ler o livro. Ficou mais fácil entender os nomes dos personagens e o quê exatamente estava se passando na história. A segunda parte do livro é contada pelo personagem Quentin, irmão do deficiente e apaixonado pela própria irmã. A terceira parte é contada pelo outro irmão Jason, o personagem mais asqueroso, repulsivo, que manda castrar o próprio irmão, engana a mãe doente, e tem sua cota de maldades devidamente vingadas. A última parte é contada em terceira pessoa e retoma todos os personagens e suas histórias. Em 1959 foi lançado um filme baseado nessa história com os famosos Yull Brinner e Joanne Woodward.

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Trechos do livro: “Mudar de nome n]ao vai ajudar ele nem um pouco. Nem atrapalhar. Isso de trocar de nome não dá sorte pra ninguém.” “Dou-lhe este relógio não para que você se lembre do tempo, mas para que você possa esquecê-lo por um momento de vez em quando e não gaste todo o seu fôlego tentando conquistá-lo.” “O pai disse que antigamente se conhecia um cavalheiro pelos livros dele…” “Veja o que seu avô fez com aquele preto velho…agora ele pode ficar desfilando em tudo que é parada. Se não fosse o meu avô, ele teria que trabalhar igual aos brancos.” “As mulheres nunca são virgens. A pureza é um estado negativo e portanto contrário à natureza.”