Uma história em quatro meses

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O livro Destino La Templanza, da autora espanhola María DueÑas, conta em 479 páginas a história de Mauro, que por fazer uma jogada inesperada com seu dinheiro, se vê deixando nas mãos do agiota mais temido, toda sua fortuna: uma mansão que pretende retomar , quando voltar do México e lhe pagar os juros. Mauro fez fortuna na mineração, mas vai para o México tentar fortuna em qualquer coisa. Lá ele ganha no jogo uma fazenda decadente onde antigamente se fazia vinho. Ele não pretende ficar com a casa, apenas vendê-la para voltar à Espanha. Mas a vida da família e das pessoas que viviam na casa, começa a envolver com sua própria vida. E depois de muitos anos viúvo, se vê apaixonado.

Mas esse livro não tem cenas românticas descritas, é tudo muito imaginado. Algumas pessoas que estão na primeira parte do livro, não aparecem mais, outros personagens só passam pela história. gostei mais do primeiro livro dessa autora.

Trechos do Livro:”Assim foi selado o acordo mais mesquinho de sua vida…os documentos de sua derradeira propriedade…” “Para os espanhóis, os criollos eram inferiores pelo simples fato de terem nascido na América, tendiam à preguiça e a inconstância…” “Coisas mais estranhas já havia visto apostarem sobre uma mesa de bilhar…”

Um vigia para sua consciência

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O livro Vá, Coloque Um Vigia da autora americana Harpper Lee tem em 251 páginas a continuação da história da personagem Scout do livro anterior da autora, O Sol É Para Todos. Aqui a escrita muda muito, temos apenas a visão da personagens que era muito forte e decidida aos oito anos e se torna mimada e fraca aos 26. Ela retorna à cidade depois de dez anos morando em Nova York e vê seu pai e seu namorado fazendo parte de uma Associação que vê o negro como uma figura inferior e não tem direitos políticos. Ela se revolta, briga com a família, mas no final diz que nunca se casaria com um negro. Ela acha que teve uma vida normal porque seu pai tratava os negros com respeito, mas nunca questionou porque não frequentavam a mesma escola ou a sua casa para brincar. E ao crescer continua não colocando-os como parte do seu círculo social, mas culpa seu pai por não colocá-los no seu círculo político. Não favoritei o primeiro e dei 3 estrelas pros dois.

Uma saga da Era Vitoriana

O Livro das Crianças não é um livro infantil. Escrito em 2009 pela autora inglesa A.S. Byatt, o livro de 671 páginas conta a história de Olive, uma senhora casada e com vários filhos em 1895. Uma novidade é que ela bancava a família com seu ofício de escritora de histórias infantis. Cercada pelo mundo das artes e cultura, todos à sua volta são modernos. Ela escreve um livro pra cada filho. Ela pensa que cada um criou sua própria fantasia. A família tem vários segredos e sussurros. Uma trupe de atores alemães passa um tempo na propriedade e encenam uma peça que deixam todos meio que anestesiados. Todos acham que o alemão que cria as marionetes tem poderes místicos.

Uma turbulenta saga familiar que começa na Era Vitoriana e termina na guerra. A autora passa todas as informações políticas de cada período. Os personagens representam as classes familiares da Inglaterra do Séc. XIX. Tem o grupo das artes, atores, ceramistas, pintores, bordadeiras. Tem o grupo das feministas com mães solteiras que se apoiam, médicas. E tem as histórias que Olive escreve, histórias dentro da história.

As meninas Fludd me lembram “as virgens suicidas”. O narrador é onisciente mas deixa dúvidas quanto ao sentimento dos personagens. Nas duas últimas partes do livro me pareceu que a autora quis incluir toda sua pesquisa e a história fictícia se mistura com os relatos históricos, transformando em um livro acadêmico. O livro tem muitas notas de rodapé com informações da tradutora Elisa Nazarian.

A autora é premiada. Esse livro foi indicado para o Book Prize 2009.

Trechos do Livro: “…tendo sido educada na atmosfera fabiana de uma justiça social racional, foi forçada a admitir que não tina ‘direito’ de se sentir infeliz, uma vez que era excessivamente privilegiada. ” “Sua mãe era uma boa e temente luterana que despendia tempo e dinheiro visitando hospitais para os pobres, organizando bazares e juntando roupas. Mas ela comia em porcelana Meissen, com colheres de prata. Havia inconsistências terríveis.” “Sentiu prazer também na inerte solidez das vidraças e da mobília polida, na fileira de livros arrumados à sua volta…”

História Italiana

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O livro O Leopardo do autor italiano Tomasi Di Lampedusa é um clássico ďos anos 60, contando a versão romanceada de fatos reais da história italiana. Muita trama política e religiosa numa história que começa em 1860 e vai até 1910, contando um pouco da vida do Príncipe Fabrizio e seu séquito. Fiquei meio decepcionada com a trama, por ter assistido ao filme do diretor Luchino Visconti filmado em 1963, que coloca o personagem do ator Alan Delon como principal. No livro ele quase não aparece, apenas serve de ponte para as histórias do Príncipe. Mas o autor era um crítico literário então ele escreve muito bem, fez uma pesquisa histórica para descrever os fatos políticos, apesar de demonstrar não querer falar mal de seu país.

Trechos do Livro: “Esperava que Tancredi também os notasse e que se desagradasse perante esses traços reveladores de uma diferença de educação. Trancredi já os havia notado mas, infelizmente, sem resultado. Deixava-se arrastar pelo estímulo físico que aquela belíssima mulher oferecia à sua juventude fogosa e, digamos, ainda pela excitação dos cálculos que aquela moça rica produzia em seu cérebro de homem pobre e ambicioso.”

O filme no original  Il Gattopardo é um premiado filme de 1963 do diretor italiano Luchino Visconti, e estrelado por Burt LancasterClaudia CardinaleAlain Delon e Mario Girotti (Terence Hill) entre outros, o filme foi o vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes, no ano de seu lançamento. 

O filme recria a atmosfera vivida nos palácios da aristocracia durante o conturbado reinado de Francisco II das Duas Sicílias e o Risorgimento – longo processo de unificação dos Estados autônomos que originaram o Reino de Itália, em 1870. Essa parte é bem fiel ao texto do romance e o cenário político italiano é reconstituído com o intuito de interferir em dilemas dos personagens ficcionais.

Ficção Política

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O livro Lágrimas Na Chuva da autora espanhola Rosa Montero, conta em 358 páginas a história de Bruna, uma replicante de combate. A história se passa no futuro de 2109, num mundo utópico, onde todas as diferenças vivem juntas: humanos, alienígenas, bichos, replicantes, tecno-humanos, andróides. Mas têm um grupo que não gosta dessa mistura e gostaria de separar os humanos. Bruna que também é uma detetive e têm amigos de todas as formas, é contratada para investigar umas memórias adulteradas que estão sendo implantadas nos robôs. Essas memórias piratas tornam os andróides assassinos. Os andróides têm tempo de vida limitado e isso incomoda Bruna, que perdeu seu companheiro para o fim da vida útil das máquinas.

A história tem páginas e páginas explicando o que aconteceu com a terra, as leis que criaram, as guerras. A personagem principal, apesar de ser um andróide de combate, é mimada, sem controle, não aceita opinião dos outros, não quer morrer, mas também não se cuida: drogas, álcool, brigas, têm de tudo um pouco na vida dela. Está sempre atrasada para os compromissos.

Não tem um só personagem cativante! Isso faz a história se arrastar um pouco. Me vi torcendo pra personagem principal virar mártir. 😐

Trechos do Livro: “A existência e a integração dos tecno-humanos criaram um intenso debate ético e social que está longe de ser esclarecido…eles deveriam deixar de ser fabricados.” “Como a gestação desses indivíduos é economicamente muito dispendiosa…todo tecno-humano servirá à empresa que o fabricou…” ” Não digo que não existam conspirações; digo que há muito menos do que se imagina, e que na verdade são amadorismo improvisados, e não perfeitas estruturas maquiavélica.” “…associação que engloba todos os seres que querem ser o que não são: mulheres que querem ser homens, homens que querem ser mulheres, humanos que querem ser reps, reps que querem ser humanos…sempre nos parece que nossa realidade é insuficiente.” “Abandonou o emprego, fundou a Igreja do Único Credo e se dedicou a pregar o Culto Labárico…” “…tatuar uma imagem equivocada resultava numa desordem atroz e atraía uma infinidade de desgraças; aplicar a figura precisa, pelo contrário, acalmava e protegia o indivíduo…” “A tristeza era um verdadeiro luxo emocional…Quando a dor que se sente é tão aguda que se receia não poder suportá-la, não há tristeza, e sim desespero, loucura,fúria. “

Filósofo, Cientista e Monge Excomungado

O livro Profecia da autora S. J. Parris é o segundo da série que pode ser lida separadamente, conta em 319 páginas a história de Bruno, um monge italiano excomungado. Contada em primeira pessoa, em 1583 está acontecendo várias tramas entre Inglaterra e Escócia para ver quem vai ficar com o trono. A França e a Espanha oferecem seus acordos. Mas uma das tramas pode dar errada quando uma das dama de companhia da rainha Elizabeth aparece morta de forma misteriosa. Esse escritor e filósofo é chamado para ajudar a descobrir o assassino. Então ele se infiltra no grupo da rainha Mary. Ele passa por vários problemas até ele mesmo se questionar porquê ele faz tudo errado: acredita em todo mundo, sabe que tá sendo vigiado mas continua fazendo papel duplo, sabe que a mulher do Embaixador está tramando, mas quase se envolve com ela.

Só nas cinquenta páginas finais o complô é descoberto mas nem todos são acusados e presos.

Trechos do livro: “Por um instante, reflito sobre o caminho estabelecido para as jovens nascidas na nobreza: quão brevemente lhes é permitido brilhar, serem exibidas e admiradas em público em seu próprio meio social, só o tempo exato que levam para encontrar um marido adequado.” “Conheci filósofos em Paris. Eram homens tranquilos, de barbas cheias de poeira, que se dedicavam exclusivamente à seus livros. Não entravam pelas janelas de madrugada cobertos de sangue e excremento.”

Gutenberg: a ficção da história real.

O livro O Aprendiz De Gutenberg da autora americana Mestre em Belas Artes Alix Christie, conta em 366 páginas a história do processo de criação dos primeiros tipos e primeira impressora nos anos 1450 na Alemanha. Gutemberg tinha toda a idéia de repetição de textos feitos em placas de zinco ou formas de letras de madeira. Com a injeção de dinheiro por um rico mercador chamado Fust ele vê a chance de ganhar dinheiro com os negócios escusos da igreja e da política. Então Fust decide trazer seu filho adotivo para aprender o negócio da prensa de livros. Peter acha isso tudo uma blasfêmia já que ele estudou a vida toda para ser um escriba. A história tem dois tempos: no presente onde Peter é rico e dono da melhor gráfica e o passado onde tudo começou.

Nada se passa de forma simples, muitas intrigas religiosas, traições aonde envolve dinheiro e no final as idéias do escriba para reproduzir sua própria escrita e salvar os livros dos soldados é emocionante.

A autora fez toda uma pesquisa na Alemanha e em Londres e a capa do livro é uma reprodução das iluminuras do velino de Gutemberg.

Trechos do Livro:” Pela lei, o mestre tornava-se seu pai a partir do momento em que Peter entrou para trabalhar com ele. ..como aprendiz, ele agora pertencia a esse louco, assim como se tivesse nascido filho dele.” ” O negócio de qualquer negócio é descascá-lo: quanto mais limpo e mais simples, melhor…” “…apreciava status. Era a maldição de todos os que nasciam sem privilégio nenhum, mas dotados de cérebro para tentar subir na vida.” ” Como era odioso o poder deles agora, dispostos contra a respiração desses novos homens, o alvoroço da renovação fluindo pela oficina…” ” A carta expedida pelo papa naquele ano era do tipo mais alto: uma indugência plenária garantindo a remissão completa de todos os pecados.”