A utopia e a realidade

O livro A Festa no Castelo do autor nacional Moacir Scliar, conta duas histórias que se transformam em uma só em 133 páginas. Uma das histórias se passa no presente – anos 60 – e a outra no século passado.

Uma parte conta a história da festa do conde que é vegetariano, mas tem que comer a carne de um  javali que faz parte da festa, pois foi morto durante a caçada real. Uma quadrilha que rouba dos ricos pra dar aos pobres invade a festa.

A outra parte é um jovem que estuda pra ser advogado, vê seu pai chegar todo dia estressado por causa da crise no país e reclamando dos empregados de sua pequena loja. Esse jovem conversa com o vizinho, um sapateiro italiano que coloca em sua cabeça idéias socialistas: tudo vai melhorar quando o socialismo imperar. E resolvem criar uma fábrica socialista.

Claro que tudo vai por água abaixo: tanto no império, quanto no “tirar dos ricos pra dar aos pobres” também no socialismo. ….

Muito atual, o texto mostra que o que importa é ter equilíbrio.

Trechos do livro : ” Nunca poderia entender os meus sentimentos, por isso zombava; por isso desperdiçava sua vida em festinhas. ..eu agora estava acima daquilo tudo… que só seria possível quando o socialismo eliminasse toda a falsidade interposta pelo capitalismo entre o homem e a mulher.” “…sonhava…o rosto radiante, falava de sociedade sem classes, todos vivendo como irmãos, compartilhando o pão e o vinho.” “Me pareciam muito deprimidos, melancólicos. Seria possível construir o socialismo com uns tipos como aqueles? E se a gente os substituísse por elementos jovens, ideologicamente firmes, ainda que não-afeitos ao trabalho físico?”

Anúncios

Somos os Livros que Lemos.

O livro Fahrenheit 451 do autor americano Ray Bradbury mistura em 203 páginas ficção científica, suspense e distopia, numa história que se tornou clássica, foi lançada em 1953 (com o nome The Fire Man), se tornou filme em 1966. O protagonista Montag (nome de uma fábrica de papel) é um bombeiro sem memória que queima livros. A sociedade não quer nada que as faça chorar ou pensar. Então ninguém quer os livros. Os que resolvem ler, são presos e os livros encontrados são queimados. Ao conhecer a adolescente vizinha, que lhe conta coisas filosóficas sobre a vida, Montag começa a se incomodar de não ter memória. E começa a descobrir que as memórias estão nos livros que ele ajuda a queimar. Com a morte da menina ele se torna um rebelde e começa a esconder livros e conhece outros rebeldes. A cena final é um reality show mostrando a sua caçada em tempo real. Só assisti ao primeiro filme e a versão do diretor Michel Moore para o 11 de Setembro.

O que entendi diferente de outros: Montag é sem noção. O chefe dele Beatty (que pode significar iludir) foi a segunda pessoa a tentar trazê-lo pra realidade. Ele cita vários livros, mostrando que gosta de lê-los, ele o provoca para que ele saia da apatia, porque do mesmo modo que Faber (nome de um fabricante de lápis), não tem coragem de mudar de vida. E prefere morrer. E o Montag se torna um vilão, do mal e os rebeldes dizem que tudo que ele fez foi para um bem maior. Não concordo. Ele botou os pés pelas mãos quando se torna pior do que os inimigos. O próprio autor disse que os roteiristas de filmes e teatro mudam o final para um “final feliz”. A Dior lançou um perfume de mesmo nome. As pessoas têm uma versão boa para o fogo: ele limpa purifica, se torna cinzas de onde renasce a fênix, aquece.

perfume

Trechos do livro: “Ele se viu nos olhos dela, suspenso em duas gotas cintilantes de água límpida, uma imagem escura e minúscula, em ínfimos detalhes…como se os olhos dela fossem dois pedaços miraculosos de âmbar violeta…” “Não estava feliz…Usava sua felicidade como uma máscara e a garota fugira com ela pelo gramado e não havia como ir bater à porta para pedi-la de volta.” “A escolaridade é abreviada, a disciplina relaxada, as filosofias, as histórias e as línguas são abolidas, gramática e geografia pouco a pouco neglicenciadas, e , por fim quase totalmente ignoradas. A vida é imediata, o emprego é que conta, o prazer está por toda a parte depois do trabalho. Por que aprender alguma coisa além de apertar botões, acionar interruptores, ajustar parafusos e porcas?” ” Se não quiser um homem politicamente infeliz, não lhe dê os dois lados  de uma questão para resolver, dê-lhe apenas um.”

 

Sobre a Política

principe

O famoso livro O Príncipe de Nicolau Maquiavel, tem a fama de ser amoral e só fazer juz à traição, inveja, orgulho, mas é apenas ficção, uma carta em forma de conselhos para um jovem príncipe sem experiência de guerras e reinos, inimigos e igreja, soldados e milícia. Então tornou-se um tratado de como o Estado deve proceder com seus subordinados de forma rígida. Mas ele têm boas idéias e usa as guerras e seus nobres como exemplo do que deu certo ou não e porque. Apesar do termo maquiavélico ser sinônimo de amoral e pérfido, na verdade o autor fala muito de ética no trato com seus súditos. Esta edição possui, em 165 páginas, uma introdução escrita pelo tradutor Antonio D’Elia que explica um pouco sobre o período em que o livro foi escrito, o que se passava na Europa, especificamente na Itália. O Cinquetento, conhecido como o século negro e vergonhoso para a Itália em todas as áreas: artes, religião, literatura. “O leitor não sente a transição entre passado e presente, entre o tom argumentativo e o tom exemplificativo, tão bem ajustadas estão as peças da exposição”. 

Trechos do Livro:  “…É muito fácil mantê-los, principalmente quando não estão afeitos a existir com independência…”

Proibido para Menores de 30. =0

O livro Laranja Mecânica do autor britânico Anthony Burguess, conta em 274 páginas (nesta edição comemorativa com 342 pág, com textos extras) a história de Alex e o livre arbítrio. Alex é um jovenzinho de 15 anos que tenta formar um grupo de desordeiros com mais três rapazes para “aterrorizar” o bairro onde mora. No começo da história, contada por ele mesmo,  ficamos sabendo que ele já foi preso anteriormente por esse motivo. E aí ele conta detalhes do sadismo, perversidade e anomalia do ser meio-humano que ele é. E não comete essas atrocidades porque está em grupo, não. Ele conta o estupro de crianças que ele pratica sozinho. E conta sobre a omissão de seus pais sobre sua conduta, quando deixa de ir à aula ou traz dinheiro pra casa. Então, ao ir novamente preso, pede pra participar de um programa do Governo que fará com que saia da cadeia pra nunca mais voltar. Esse sistema é um tipo de “hipnose/lavagem cerebral” que associa sensações físicas ruins quando ele pensa ou fala ou tenta fazer coisas ruins. E funciona. Ele sente vontade de vomitar e se sente doente toda vez que vê uma imagem das coisas que ele fez. Mas aí começa a briga dos “eleitores contra o Governo”, dizendo que esse método vai contra o livre-arbítrio do cidadão.

Problemática: A fala do personagem é transcrita toda numa gíria inventada por eles, o que torna o texto cansativo e às vezes chato. Parece que você está falando com um bebê: da-da-dá-gu-gu-gu.Se é apenas parte do texto, ok, mas abandonei Grandes Sertões por esse motivo: escrever conforme a fala, o livro TODO. A capa e a diagramação em papel diferenciado incentiva pegar o livro, mas as ilustrações são horríveis. Os textos extras também são bons.

Porque é bom? A escrita do autor, quando não usa palavras inventadas, é muito boa. Ele te convence a simpatizar com o monstro do Alex. Como faz isso? Fazendo ele usar palavras cultas, gostar de música clássica onde a Nona Sinfonia de Beethoven faz o fundo musical dessa história. E mostrando que tirar o livre-arbítrio da pessoa, pode tirar a parte ruim, mas leva a parte boa junto. O filme, do ótimo diretor Stanley Kubrick, peca por escolher atores tão velhos para o papel, mas já virou um clássico! (O livro é de 1962 e o filme de 1971.)

 

Trechos do Livro: “…a tentativa de impor ao homem, uma criatura evoluida e capaz de atitudes doces, que escorra suculento pelos lábios…afirmo que a tentativa de impor leis…” “A questão é se uma técnica dessas pode realmente tornar um homem bom. A bondade vem de dentro…bondade é algo que se escolhe.” “Pode não ser bom ser bom. Ser bom pode ser horrível. E quando digo isso a você, percebo o quão auto-contraditório isso soa.”

A Jóia do Oriente

O livro A Árvore dos Janízaros do autor inglês Jason Goodwin conta em 356 páginas a história do eunuco Yashim que é chamado para resolver dois problemas no palácio do sultão: uma morte no harém e o sumiço de quatro soldados da guarda imperial. Ele é informado que um grupo de antigos “Janízaros” estão tentando voltar ao poder. Ele tem um prazo de dez dias para achar os culpados. E aí tem uma sequência de traições, lugares secretos, muitas receitas árabes e um passeio histórico na Istambul do Sec. XIX, antiga capital do Império Otomano.

istanbul

Problemática: Nas primeiras páginas o autor passa a idéia de um eunuco inteligente e a gente imagina um 007, resolvendo todas as questões, que sabe usar armas… #sqn! O personagem principal não realiza nada de fantástico. Até as últimas páginas, os crimes são conhecidos porque os criminosos resolvem se manifestar. E dizem que vai ter outro livro pra esse personagem… Mas ele sabe cozinhar e recitar poesias.

Trechos do Livro: “…combinava a função de bombeiro com a mais lucrativa atividade de incendiários, exigindo propinas para apagar incêndios que eles mesmos haviam provocado.” “Onde havia uma fraqueza a ser explorada, ali a ganância encontraria o terreno ideal.” “Belas cidades cujos cidadãos satisfeitos apóiam uma administração inteligente existem, e não contém sequer um edifício público dilapidado…” “Ser capaz de recordar: é isso que faz um povo.” “Mesmo aqui há muita tristeza. Mesmo na Morada da Felicidade.”  “Todas elas lêem. Comendo as formiguinhas sobre o papel com os olhos e depois cuspindo a porcaria toda de volta na cara das pessoas quando elas menos esperam.”

 

O amor não realizado e a transição política

O livro Esaú e Jacó, penúltimo livro de Machado de Assis, com 277 páginas, publicado em 1904, foi escrito em uma época de transição na política brasileira: o país deixava de ser uma Monarquia para ser uma República. Então o livro conta a história de duas famílias vivendo esse momento político. A família dos gêmeos Pedro e Paulo (sim! o título do livro é só pra te enganar – não existem personagens com esses nomes) que querem e vão ser advogado e médico e futuramente deputados, e a família da moça Flora, apaixonada pelos dois irmãos e objeto de paixão dos mesmos. Gêmeos idênticos, mas com personalidade diferente, os dois fazem um acordo de “sair de campo” quando Flora escolher um deles. Mas a moça começa a ter alucinações de que os dois são um só, porque gosta de ambos, então enfraquece e morre. E os dois seguem concorrentes na vida.

No livro aparece Aires, um personagem de outro livro de Machado. O autor escreve como se estivesse conversando com ” a leitora”. Em alguns capítulos ele chega a contar o que vai acontecer no próximo. Achei que ele queria contar uma história e resolveu mudar o roteiro no final do livro. Pra não se parecer com os personagens do título.

Trechos do livro: “Eis aí vinha a realidade do sonho de dez anos, uma criatura tirada da coxa de Abraão, como diziam aqueles bons judeus, que a gente queimou mais tarde, e agora empresta generosamente o seu dinheiro às companhias e às nações. Levam juro por ele, mas os hebraísmos são dados de graça.” “…enquanto ele enfiava uma beca no jovem advogado…também lhe ensinava a enriquecer depressa; ajudá-lo-ia começando por uma caderneta na Caixa Econômica…” “Nada disso foi escrito como aqui vai,, devagar, para que a ruim letra do autor não faça mal à sua prosa.” “Não amava o casamento. Casou por necessidade do ofício; cuidou que era melhor ser diplomata casado que solteiro…” “O salto é grande, mas o tempo é um tecido invisível em que se pode bordar tudo, uma flor, um pássaro, uma dama, um castelo, um túmulo.” “A abolição é a aurora da liberdade; esperemos o sol; emancipado o preto, resta emancipar o branco.”

Um Livro que Cumpre Todos os Desafios Literários! =D

Umberto-Eco-La-misteriosa-fiamma-della-Regina-Loana-Ed.-Bompiani-2004

O livro A Misteriosa Chama da Rainha Loana, do escritor italiano Umberto Eco, com 447 páginas, consegue cumprir vários, se não todos os desafios literários. O que pode ser encontrado nele?

  1. Livro com figuras
  2. História em quadrinhos
  3. Poesia
  4. Música
  5. Romance Ilustrado
  6. Jornal
  7. Guerra
  8. Política
  9. Religião
  10. História
  11. Filosofia
  12. Cinema
  13. Coleção de Selos

O autor conta a história de um livreiro que perde a memória e após voltar do coma, com a ajuda da família, retorna à casa de sua infância para tentar recuperar os acontecimentos através da biblioteca de jornais, livros e revistas de seu avô. Contada em primeira pessoa por um desmemoriado (narrador não-confiável), que consegue se lembrar de vários textos decorados de seus autores favoritos, mas não consegue se lembrar de sua família e seus amigos. O autor mostra que novamente ele usou uma extensa pesquisa sobre Acervos do período da segunda guerra. Tem uma comparação do esquecimento com a névoa que é citada em vários autores clássicos, como um mistério a ser desvendado. Tem piada machista, racismo, ironia sobre religiões, ironias sobre a guerra. O título do livro veio de uma Hq que ele compara a chama aos impulsos elétricos  da memória.

Trechos do Livro: “Você lembra de idéias e hábitos, mas não de sensações, que no entanto são as coisas mais suas.” “Desculpe. Não consigo dizer nada que me venha do coração. Não tenho sentimentos, só ditos memoráveis.” “…prateleiras cheias de livros… Pela primeira vez tinha a impressão de estar num lugar onde me sentia à vontade.” “…as citações são meu único farol na neblina.” “…você tem uma memória de papel. Não de neurônios, de páginas.” “…um psicólogo lhe contou que em toda sua carreira nunca encontrara uma criança neurotizada por um filme (mortos-vivos), exceto uma vez…irremediavelmente…fora arruinada por Branca de Neve” “Não me espanto com o que aprendo, que só confirma o que compreendi sozinho. Mas o pensamento de que alguém me surpreenda enquanto leio, e perceba que percebi…” “Sonhamos falsas lembranças. Por exemplo, lembro que sonhei mais de uma vez que finalmente voltava a uma casa que não visitava há muito tempo…percebia que a lembrança pertencia ao sonho…nos sonhos nos apossamos das recordações de outros.

“Mas aonde vais bela da bicicleta

tão depressa pedalando com fervor

tuas pernas esbeltas, torneadas, lindas

em mim já semearam

no coração esse ardor.

Mas onde vais c’os cabelos ao vento

o coração contente e o sorriso

encantador…

Se quiseres, e quando quiseres,

chegaremos ao limite do amor.”