Como um programa sensacionalista =/

O livro O Assassino Cego da autora Margaret Atwood, conta em 493 páginas duas histórias. A primeira delas uma senhora idosa relembra toda sua vida ao se ver perto de morrer. Seus fantasmas do passado a atormentam: a morte da mãe; seu casamento arranjado por seu pai que estava falido; a morte da irmã que se torna escritora póstuma; a morte do marido e a perda da guarda de sua filha.

A segunda história, que dá título ao livro, mostra um casal de amantes, que a cada encontro, ele a presenteia com uma parte da história desse assassino. Uma história cheia de mortes, sexo, fugas, fantasia, distopia, ficção cientifica. (Ufa!) E ainda tem os “recortes” do jornal da época, mostrando as notícias na coluna social, fases da vida da protagonista.

As duas histórias se unem na página 300 mas agente já sabe disso desde a página 100. Então parece aqueles programas policiais ou dramáticos, em que a mesma frase é repetida pra dar ênfase; e o apresentador dá uma pausa na melhor parte e diz “voltamos depois do comercial”. Ela demora pra contar um “segredo” que já ficou claro! A gente até torce pra que a autora nos surpreenda nas últimas linhas, mas isso não acontece.

Trechos do livro:” Havia um monte de deuses. Deuses sempre ajudam, servem de justificativa para quase tudo…” “Eu não devia submeter meu coração a tais testes, agora que fui informada de suas imperfeições; entretanto, sinto um prazer perverso em fazê-lo, como se eu fosse um brutamontes e ele um bebê chorão cujas fraquezas desprezo.” “Era como se eles tivessem bebido uma porção mágica que iria mantê-los afastados para sempre, mesmo que vivessem na mesma casa, comessem na mesma mesa, dormissem na mesma cama.” “Nenhuma criança do sexo masculino deve permanecer viva para crescer cultivando a sede de vingança por seu pai assassinado; nenhuma criança do sexo feminino para corromper o povo da alegria com seus modos depravados.”

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A História da Aia

O livro A História da Aia voltou a ser assunto recorrente quando Donald Trump foi eleito presidente dos EUA em 2016, por ter sido usado como referências para os  recentes protestos feministas, incluindo a Marcha das Mulheres contra Trump realizada em janeiro de 2017.

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Escrito pela autora canadense Margaret Atwood em 1985, nesta edição da Marco Zero o livro tem 329 páginas, sendo o último capítulo “Comentários Históricos” onde acontece um Simpósio onde em 2195 está sendo mostrado esse estudo que conta a história da Aia em fitas cassetes. O palestrante tenta mostrar para a platéia que tentaram de todas as formas encontrar os personagens dessa história, mas falharam. Se ela começasse com esse capítulo, poucos iriam pra frente com a história, mas a autora começa com a própria Aia narrando sua história, onde ela vai nos apresentando todo o ambiente e as regras desse espaço/casa. Aos poucos vão aparecendo os personagens , partes da história de cada um. Como numa procura de peças num quebra-cabeça, a narradora conta um pouco do que acontece em seu presente e conta sobre as lembranças do passado, quando TUDO começou, mesmo que a gente não saiba o que é esse tudo, que começa a ser mostrado na página 187. Para manter o suspense a autora usa a forma desconectada de contar a história, como se não pudesse contar logo o que está acontecendo. A narradora conta a história como se estivesse dando uma entrevista, mas como se estivesse acontecendo naquele momento. É uma história que incomoda, depois de tantas lutas que as mulheres tiveram para ser donas do próprio nariz, ouvir que um governo pode retirar todos os seus direitos e que algumas mulheres vão ficar a favor disso! é a história de como tornar as mulheres invisíveis mas vigiadas.

Trechos do livro: “Gostaria de crer que estou contando uma história. Preciso acreditar nisso. Os que acreditam que essa história não passam de histórias têm mais chance.” “Tempo é o que não falta. Essa é uma das coisas para o qual eu não estava preparada: a quantidade de tempo sem preencher, os longos parênteses de vazio.” “Moira era como um elevador sem paredes. ..Já estávamos quase perdendo o gosto pela liberdade, quase confundindo aquelas paredes com segurança.” “O que me faz falta é a perspectiva. A ilusão de profundidade gerada por uma moldura…” “…olhando para a revista…eu me lembrava. O que elas continham eram promessas…de transformações; sugeriam uma série infinita de possibilidades…sugeriam uma aventura atrás da outra…” “Melhor nunca quer dizer melhor para todos, diz ele. Sempre quer dizer pior para alguns.” “Nossa área é separada por um cordão…vermelho. ..esse cordão nos segrega, nos separa, impede que as outras se contaminem…” “A humanidade é tão adaptável…” ” É preciso que se ofereçam alguns benefícios e liberdades, pelo menos para uns poucos privilegiados, em troca daqueles que se eliminam.”

Finalizando Leitura…

O artigo ” As meninas más na literatura de Margaret Atwood e Lucía Etxebarría” de Lelia almeida, trás um texto interessante sobre livros que colocam as mulheres como personagens fortes, não se deixam ser vítimas dos homens. Na contracapa deste livro A noiva Ladra de Margaret Atwood, com 478 páginas, a autora diz que se inspirou num texto chamado o noivo ladrão para inverter a história e colocar a mocinha como vilã. Não vi a vilã aparecer no livro pra mim. :/   A história é contada do ponto de vista das três vítimas dessa “noiva ladra”. Você não fica conhecendo, nem tem idéia do que realmente é a personagem, vamos dizer, principal, já que as três vítimas contam cada uma a história diferente e são todas sem graça, sem sal, não dá pra se identificar com ninguém. Parece um ensaio sobre a loucura. 

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Também foi lançado um filme em 2007..