…da cópia à inspiração…

Plágio
  1. jur apresentação feita por alguém, como de sua própria autoria, de trabalho, obra intelectual etc. produzido por outrem.
    Neste livro A Marca de Uma Lágrima, com 94 páginas o autor Pedro Bandeira diz que se inspirou em Cyrano de Bergerac  para escrever sua história. Inspiração não é plágio. Realmente ele conseguiu, invertendo os papéis, onde o romântico personagem Cyrano, feio mas ótimo poeta ajuda seu rival a conquistar a mulher amada, se transforma em Isabel, adolescente que se acha feia, mas é nota dez em redação na escola. Ela ajuda sua amiga a conquistar o rapaz por quem ela acha que está apaixonada. Porque essa história tem mais personagens e tramas paralelas, o que mostra que ele apenas se inspirou em partes com a história original.
    Uma boa história para adolescentes, principalmente para incentivar o ler a versão de Cyrano de Bergerac ou mesmo ver o filme de 1990 com Gérard Depardieu, que eu assisti. =)
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Formas de escrita: novidade =)

Já falei sobre essa novidade aqui no blog, mas quero “reblogar” o post do Leonardo Villaforte sobre Remix Literário:

“MixLit 69: Encontro

Uma mulher nos abriu a porta. Era a mulher que fazia os serviços da casa.1 Usava um tipo de saia espanhola com muitas cores e uma espécie de bustiê.2 Para tirar o cheiro da gordura da chapa em que trabalhava, ela ensopava de creme rinse o cabelo meio louro, meio preto.3 Parecia realmente maravilhosa.4 Fiquei paralisado.5 O que conversar? Como puxar assunto?6 Eu estava com medo, claro. Sentia medo de, por causa de um movimento infeliz,7 não me dar bem.8 Depressa, homem, depressa – balbuciei, quase sem fôlego.9 Bateu aquele frio na barriga. Respirei profundamente e caminhei10 com um olhar brilhante, impenetrável. Inclinei-me para beijá-la.11

Bruce-French_Darkness-is-the-Absence-of-Light,-Orange– Fora daqui – murmurou.12

– Não.

– Você está pálido.

– Eu sou pálido. Vamos, ande.13 Não vou assustá-la de novo.14

Você sabe muito bem que tudo vai piorar.15

Eu estava entregando os pontos. Teria entregado os pontos se não fosse uma voz que se fez ouvir no meu coração. Essa voz dizia:16 ela precisava da minha companhia.17

Quando voltarei a vê-la?

– Telefono para você amanhã ou depois – disse ela.18

O meu rosto assumiu uma expressão severa e determinada.19

Promete?

Ela assentiu.

– Pode ligar para a minha casa ou a livraria. O número é o mesmo. Você tem, não é?20

Marquei de pegá-la na saída do trabalho.21

Nunca mais nos encontramos.22


1 João Gilberto NOLL. Hotel Atlântico. Em: Romances e contos reunidos. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p.408.

2 Meg CABOT. O diário da princesa, Vol.1. Tradução de Fabiana Colasanti. Rio de Janeiro: Record, 2002, p.136.

3 Marcus Vinícius FAUSTINI. Guia afetivo da periferia. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2009, p.86.

4 Meg CABOT. Idem.

5 Carlos Ruiz ZAFÓN. A sombra do vento. Tradução de Marcia Ribas. Rio de Janeiro: Suma de Letras/Objetiva, 2007, p.256.

6 Thalita REBOUÇAS. Ela disse, ele disse. Rio de Janeiro: Rocco, 2010, p.9.

7 Ricardo LÍSIAS. Anna O. e outras novelas. São Paulo: Globo, 2007, p.16.

8 Meg CABOT. Idem.

9 Yann MARTEL. As aventuras de Pi. Tradução de Maria Helena Rouanet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012, p.180.

10 Thalita REBOUÇAS. Idem.

11 Carlos Ruiz ZAFÓN. Idem, p.257.

12 Carlos Ruiz ZAFÓN. Idem, p.256.

13 Carlos Ruiz ZAFÓN. Idem.

14 Rick RIORDAN.  Percy Jackson e os Olimpianos – O mar de monstros.  Tradução de Ricardo Gouveia. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2009, p.278.

15 Rick RIORDAN. Idem.

16 Yann MARTEL. Idem.

17 Thalita REBOUÇAS. Idem.

18 Carlos Ruiz ZAFÓN. Idem.

19 Yann MARTEL. Idem.

20 Carlos Ruiz ZAFÓN. Idem, p.257.

21 Marcus Vinícius FAUSTINI. Idem.

22 Marcus Vinícius FAUSTINI. Idem.
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Este MixLit foi feito com os livros escolhidos para as seis oficinas de remix literário que dei durante a semana de dia das crianças no SESC Barra Mansa, Rio de Janeiro. Aproximadamente 100 estudantes, de 8 a 15 anos, remixaram essas mesmas páginas, montando seus próprios textos a partir das mesmas fontes.”

Acho que qualquer forma é válida para criar o próprio texto. Mesmo quando não usamos esses “recortes visíveis”, as referências estão lá, na nossa mente, todo o tempo. A forma de poesia chamada “poesia de lombada” é um recorte de textos. Só temos que preocupar com o chamado plágio -O crime de plágio está tipificado no artigo 184 do Código Penal. O que não acontece com Leonardo porque ele cita suas fontes. Existe um limite para toda arte, onde a parte do todo deixa de ser inspiração e passa a ser uma cópia. Para o desenho, onde você pode se inspirar em um artista para criar sua arte:

perolaEsta é uma versão, feita com jujubas, do quadro ‘Moça com Brinco de Pérola’, de Johannes Vermeer.

Em uma partitura musical, podem acontecer pequenos trechos parecidos,  assim como uma sequencia de acordes. Ou postar e chamar de “cover”. E é muito subjetivo porque um ouve a música e acha que o som parece com uma música famosa e outro já não  consegue ver semelhança.

Então vamos apenas testar as formas de escrita e compartilhar. =)

NADA SE CRIA, TUDO SE TRANSFORMA

As vezes, estamos lendo um livro e vem aquela sensação de já ter lido aquilo antes. Uma frase, uma descrição de um lugar, ou de um fato. Existem semelhanças entre textos, quando descrevem situações parecidas? Sim. Como um autor vai descrever uma batalha que se passa numa época em que ele nem existia, se ele não ler sobre o assunto, ou ver um filme? Isso se chama pesquisa, mas é o que vai ficar na mente na hora de descrever a ação. E aí, vem a diferença da cópia: todo mundo se “inspira’ em algo que leu, viu ou ouviu, para descrever situações nos livros de ficção.

Na web, existem vários aplicativos que mostram similaridades com textos. Esses aplicativos não podem ser levados à sério, porque se você escrever a história da sua vida lá, ele vai dizer “50% de similaridade”. Será que vão te acusar de plágio por escrever a própria história? 🙂 .

Na revista Carta Fundamental, Leda Cartum escrevendo sobre a polêmica semelhança com os livros “As Aventuras de Pi” de Yann Martel, e o livro do autor brasileiro Moacyr Scliar “Max e os Felinos”, diz que o próprio Scliar concordou que ‘se inspirar em uma ideia não significa plágio’, tanto que não houve processo judicial. Essas polêmicas resultam em curiosidade sobre as obras – para que possamos comparar e dar nossa opinião, claro! – e aumentaram a venda das obras.

Estou lendo As aventuras de Pi primeiro, para não ‘julgar’ como todo mundo que leu Scliar primeiro, até porque, já vi o filme. Nunca li esse autor canadense, mas já li livros do Scliar e gosto muito.

Só em ler o que a Cartum escreveu, eu já descartei a ideia de plágio: “são livros absolutamente distantes um do outro, com significados diversos para os animais. Para Max o jaguar simboliza  o terror…poder político… Para Pi, a relação com o tigre é de ordem religiosa… atribui a deus a explicação para encontrar-se no oceano com um tigre.” “Max cresceu em meio às peles de animais mortos da loja do pai; Pi cresceu no zoológico do pai. …tomam um navio…Max o faz pela pressão política, rumo ao Brasil. …Pi e a família…para fazer dinheiro no Canadá. Os dois navios naufragam, e os garotos se vêem sozinhos, num pequeno bote no meio do oceano, com um felino selvagem que pode atacar a qualquer momento.”

Deu curiosidade?! Vamos ler e discutir o tema?