UM ADOLESCENTE CONTA PORQUE NÃO GOSTA DE ESTUDAR.

“Não, eu não vou mais à escola.Esta é a segunda vez que eu repito a quarta série e sou muito maior do que as crianças da minha sala. Meus colegas gostam de mim. Não falo nada na sala, mas na hora do recreio eles estão sempre me rodeando pra me ouvir contar um monte de coisas.

Eu não sei porque a professora não gosta de mim. Ela não dá muita atenção pra todo mundo da sala, só pra alguns. Ela acha que a gente só aprendeu alguma coisa, se disser em que livro tá escrito e eu não consigo guardar tuo que tá no livro. Ano passado tive que ficar depois das aulas pra aprender os nomes de todos os estados brasileiros. Sei o nome de alguns: Paraná, onde meu tio foi trabalhar plantando café, São Paulo onde meu pai já trabalhou, Bahia de onde minha família veio. Mas a professora quer que eu saiba os vinte e seis separados por região e isso eu nunca sei. também não ligo pra aprender isso, porque depois que os meninos aprenderam ela disse que tinha que saber as capitais também. Aí que eu desisto mesmo!

Acho que não consigo decorar os nomes de todos os ossos do corpo humano. Nem o médico aqui do postinho de saúde sabe. Eu perguntei pra ele. Mas a professora me deu zero por isso.

Esse ano, comecei a aprender um pouco sobre tratores, porque meu tio trabalha em um e disse que vai deixar eu dirigir um quando fizer dezesseis anos. Já sei o que é diesel, cavalo-vapor, e todos os tipos de marcha de marcas diferentes. Sei como um motor à diesel faz um trator funcionar e como cuidar das engrenagens. Mas comecei a contar sobre eles – meus colegas ficaram fascinados! – a professora de Ciências disse que não tinha relação com a aula. Aí eu falei que parecia com a explicação da experiência que ela mostrou sobre pressão do ar. Ela me mandou pra coordenação. Na saída, levei os meninos comigo e eles viram o mecânico desmontar o motor e mostrou porque a bomba que meu tio tava usando para obter vácuo esquentou. Nós adoramos!

Eu também não sou forte em Geografia. Durante toda semana estudamos que o Brasil importa, exporta, mas não entendi bulhufas. Talvez porque faltei à aula na outra semana toda. Mas foi bom porque meu tio me levou numa viagem de 400km de distância. fomos de caminhão e trouxemos duas toneladas de adubo lá de São José dos Campos. Meu tipo pedia ajuda com o mapa e eu dizia quanto faltava pra chegar. Ainda tinha que indicar a estrada: ele só virava quando eu mandava. Paramos sete vezes e calculamos o óleo que gastamos na ida e volta. Meu tio quer saber como tomei bomba em matemática se eu consigo fazer conta de cabeça. Não sei. Se a minha professora aceitasse as contas assim…

Também fiquei reprovado em Artes. Era pra fazer um marcador de livros em forma de cruz com palitos de churrasco. Lá em casa não temos livros, então não preciso de um marcador. Minha mãe achou muito caro um saco de palitos e me mandou fazer com palito de fósfor usado. Fiz um barquinho que ficou manero. Mas a professora não aceitou: disse que tinha que fazer do jeito dela. e me mandou ficar depois da aula.

Aí eu pulei o muro e fugi. Tem um bando de meninos limpando um terreno pra fazer um campo de futebol pra nossa comunidade. Ajudei a fazer as traves usando canos velhos.

A coordenadora chamou o conselho tutelar e eles dizem que eu sou obrigado a ficar na escola até os quinze anos. Tô doido que chega logo! ”

 

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